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Bullying é um desvio
de comportamento praticado por um elemento ou grupo de
elementos com a intenção de intimidar, agredir,
espalhar mentiras a fim de lançar má fama ou
ridicularizar um colega que, no momento em questão,
não apresenta em si mesmo, condições de se defender.
Piadas, zombarias e rótulos ofensivos são práticas
seculares e poderosas de manipulação, controle e
repressão social porque aquilo que o ser humano mais
teme na vida é sofrer o ataque do riso. A vítima é
insultada, sistematicamente, no âmbito do público o
que torna esse fenômeno particularmente tenebroso, em
circunstância de pósmodernidade, pois em função das
novas tecnologias esse ataque ganha proporções
infernais na forma de bulling digital ou cibernético.
Detalhe: no bulling tradicional ou presencial a criança
ou adolescente se sente protegida dentro de sua própria
casa onde o ataque do opressor não lhe atinge;
entretanto, no bulling digital o insulto e a infâmia
estão estampados nas páginas da web sendo assim, a
vítima não tem descanso sequer dentro do seu próprio
quarto.
O medo tão humano de
ser ridicularizado é um ponto fundamental dessa
problemática que assume o seguinte contorno: o agressor
investe nesse medo ancestral e incita terceiros a
reforçar o ataque; a vítima recua indefesa e a
platéia oscila entre uma participação ativa
pró-ofensor e/ou um silencio conivente - muitas vezes
por medo de ser a próxima vítima do açoite da
língua, outras vezes para evitar o peso do braço forte
do opressor sobre sua própria cabeça e na mais das
vezes apenas para satisfazer os instintos bestiais
próprios da multidão insaciável por novidades
grotescas e não raro, vulgares.
Agora se você coloca
esse ataque violento e insidioso numa faixa etária que
oscila entre os 11 e 15 anos (onde o bullying ocorre com
maior força) então o problema se amplifica
sobremaneira com conseqüências imprevisíveis para a
vítima que está em formação, em todos os aspectos de
sua vida, de tal sorte que ela pode apresentar problemas
de aprendizado, isolamento social, desestímulo quanto a
uma carreira acadêmica futura e o pior... traumas
psicológicos severos na vida da criança ou adolescente
que se vê, diariamente, exposto a esse tipo de abuso,
assédio moral e muitas vezes até a violência física
cujo fim último é humilhar excluindo a vítima de um
convívio social saudável. Não raro essa prática
perniciosa e tão comum na sociedade ocidental pode
degringolar em suicídio juvenil porque como já
dissemos nessa idade a vítima, que está em formação,
não dispõe de mecanismos eficazes para fazer frente a
monstruosidade do ataque.
Sendo assim que tipo de
pessoa seria o alvo preferencial do bullie (agressor)? A
vítima é em geral um pouco mais jovem que o agressor e
naquele momento se apresenta mais frágil física e
psicologicamente vale ressaltar que no bullying digital
nem sempre é assim. Ele pode apresentar alguma
diferença do ponto de vista estético que destoa da
maioria: usar óculos, ser baixinha ou ser alta, ser
negro ou muito branco, ser gordo ou muito magro, ser
mais bonita que a média das meninas do colégio; ou
diferenças subjetivas: ser tímida ou ser muito
arrojado para os padrões locais; ser o mais inteligente
da sala etc, etc, etc. Não importa a característica
física ou a qualidade subjetiva que está sendo
detonada na vítima, o que é notório nesses casos é a
mediocridade das forças opressivas em questão.
Se você tem algum tipo
de curiosidade quanto as motivações do agressor, não
perca seu tempo com hipóteses muito elaboradas; minha
própria experiência ensina que o agressor é uma
criatura com dificuldades emocionais severas problemas
de auto-estima, baixa afetividade; proveniente de
famílias desestruturadas e com valores morais
questionáveis; sedento de poder social, logo, obcecado
por ascender no meio que está inserido; dotado de um
complexo de inferioridade feroz e uma mentalidade
primitiva cuja crença o impulsiona a diminuir o outro
(física ou moralmente) na ilusão que obterá a
aceitação e o sucesso social e pessoal que almeja.
Vários estudos comprovam que o futuro dos bullies, em
sua maioria absoluta, é sombrio e de contínuo eles
tombam no caminho da criminalidade e
delinqüência.
Diante desse quadro
lamentável o que podemos fazer para contrariar essa
tendência violenta que ameaça comprometer o presente e
as gerações futuras? O papel da escola é importante
nesse processo: promovendo debates, seminários
edificantes e exercendo um olhar atento que promova uma
conscientização constante - reuniões esclarecedoras
com os pais e encontros com grupos de alunos ajudam a
evitar que o problema se enraize. Contudo, o papel da
família é fundamental. Como será possível a criança
e ao jovem estabelecer relações corretas com seus
pares se já faz tanto tempo que os valores familiares
têm sido negligenciados dando largas a falta de
compromisso, ao desrespeito e ao desamor? Qualquer
iniciativa dentro desse contexto familiar corrompido
parece inútil!
Finalmente, uma palavra
para você que está vivenciando essa situação na sua
escola ou trabalho: crie uma distância segura do
agressor e de seus ataques (não responda diretamente
aos insultos e provocações, isso só aumentaria a
raiva e a excitação do inimigo contra você); por
outro lado, não mantenha segredo da ofensa, não se
intimide, lembre-se: você não tem motivo para se
envergonhar, quem está, extremamente, doente
emocionalmente é ele; é fundamental que você procure
um adulto sensato e confiável para enfrentar o
problema, essa ajuda proporcionará uma situação de
confronto maior e mais poderosa do que os recursos que
você dispõe; é indicado o encaminhamento do caso a
outras instâncias e abertura de processo junto a
justiça dos homens, mesmo no caso dos crimes digitais
já existem delegacias especializadas que podem tomar as
medidas cabíveis; não se desespere, procure ajuda
psicológica e espiritual e você vencerá! Lembre-se:o
que não te mata, te deixa mais forte!
Renê Pereira Melo Vasconcellos é psicóloga, doutora em Ciências Políticas e Sociologia pela Universidad Pontificia de Salamanca, na Espanha.
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