Edmundi é todo sentidos, quero dizer sensações!!! Ele é pele, sim... Ele é tudo a flor da pele! Edmundi é belo e só ama o belo!!! O feio para ele tem algo de mau, desprezível e ruim, algo assim carente de generosidade. A história da bela boazinha e da fera também boazinha é balela, balela, balela.... Fera feia tem que ser ruim, sofrer e ser punida e no fim da história ser assassinada para que a bela case com o primeiro belo que aparecer.
Que vi eu, nas minhas dolorosas visões? Que dor atroz não me atravessou o coração premido em agonia quando vi, a toda pressa, aquele que parecia ser o Edmundi-menino dando uma pirueta para fora de si, mergulhar no mundo do circo, virar equilibrista e depois se transformar em trapezista, para num salto mortal revelar-se ilusionista. A coisa vai tão longe que resta tão somente uma série interminável de ilusões, digo, transformações; de tal maneira o poder ambiental exerce força poderosa sobre esse passageiro-homocromático que o catalogador pode classificá-lo, sem medo de errar: trata-se de um autêntico transformismo darwinista.
Edmundi adolescente toma o atalho das facilidades e opta por nivelar-se ao medíocre, deixando-se conduzir, amigavelmente, pela trupe de Circe e seu desfile interminável de bestas. Ama a multidão e a ele lhe encanta misturar-se nela até perder-se de si mesmo, irremediavelmente. Sim! Porque o lugar mais difícil para alguém se encontrar, quando se perde, é dentro de si mesmo. Enfim, Edmundi quer distrair-se ao rufar dos tambores, quer alegrar-se nas baladas, nos contorcionismos e danças miméticas em cujas expressões se vê a grotesca face de Gorgó, mas o curioso, é que esse passageiro também quer pão, desde que venha junto o circo, quer distrair-se de si mesmo e sorrateiramente se mete na turba. Que desencontro!
Desencontrar-se de si mesmo é ser para sempre peregrino no seu caos interior. A fim de se distrair se oferece por inteiro, escancarando os olhos e abrindo os ouvidos para esvaziar-se um poucochinho mais do seu eu, que perde em instância e substância; lasso, faz pactos com todas as performances e leva consigo, infinitamente, as impressões da jornada, Edmundi é só sensações. A continuação já não existe homens no comboio e sim um magote de macacos apressados, alternando-se, entrando e saindo, todos com pressa, muita pressa pressa de viver suas vidas onde cada passo é seqüestrado por um floreio - de cabeça virada eles tornaram-se ansiosos, excitados e desesperados!
Foi assim que pensei ter visto aquele cuja alcunha era “o jovem” cerrando os olhos, tal qual aquele menino que tem por certo que: se cobre os olhos com as mãos e não vê ninguém tampouco será visto por alguém. Fiado nisso oferece à sua mente pródiga e fantasiosa motivos sobrados para exercitar-se, imitando o costume que se enraizou no populacho, em divagações que enredam a alma. A ocasião denunciou sua flagrante nescidade, alienando-se cada vez mais do seu verdadeiro eu, na ausência do decoro, oculta a mensagem, para usá-la quando lhe convier, para utilizá-la de corpo e alma, com o fito único de confirmar, a cada novo estímulo, outros-estranhos nele. Sua mente, bem aplicada, reserva para utilização posterior, no momento oportuno, o que, depois, os olhos não se fartarão de rever, ou seja, tudo o que ficou arquivado no limo da interioridade da natureza do homem inferior; quanto mais repetições, mais ele se esquece de si mesmo e vai se embrenhando mente adentro num processo gradativo de obscurecimento da luz, até nada mais restar além das trevas interiores que encobrem sua consciência adormecida.
Fazendo loas ao destino errante seguia em direção à Terra do Nunca ou alguma ilha sitiada pelas imaginações que nunca se fartam e nunca dizem basta! Ainda sob o efeito do peso daquela visão, como num pesadelo, vi se descortinar diante de mim um cenário de explícita decadência onde pastavam, desimpedidamente, esquálidos pangarés, - disputando espaço com os urubus cujo vôo intermitente anunciava a proximidade da carniça. Assim, pensei haver avistado um recruta de Átila, tal qual aqueles, distante uma eternidade de suas origens, vagueando como um cão faminto em lugares ermos e estéreis, atento ao menor sinal que se prestasse ao consumo imediato; concentrando sua perícia e habilidade animal a fim de localizar algo interessante passível de ser processado à flor da pele - de todos os modos, com os olhos, ouvidos, boca e nariz.
Essa era uma busca que faziam de corpo inteiro e alma derramada.
Enchendo sua bolsa de imagens, mensagens e de detalhes intrigantes vi que deixava detrás de si um espólio de ruína porque se deixou enlaçar pela ilusão na terra do engano como nos cenários de Marlboro.
Contudo, uma coisa me chamou a atenção, a tal criatura se conduzia como um bárbaro, mas não pertencia a bando algum. Seria um recruta de Átila que se havia perdido do bando ou seria um solitário a procura de seus próprios interesses? Senão prestemos atenção a esse evento que virou poeira ou seria palha?
Quando olhei mais de perto avistei uma criatura cuja aparência denunciava suas predisposições internas: peito aberto, ao zéfiro consagrado, como fazem os homens de meia-idade, com a intenção de aparentar virilidade, temeroso que esta fosse asfixiada na presença do recato desabotoa os botões da camisa e abre a brecha na casa; indiferente aos ventos procelosos que penetram agitando a casa vazia de todas as ausências a criatura prossegue em seus ciclos de obsolescência programada procurando, inutilmente, vida onde só há pele anserina.
Por outro lado, estar no vento, isso também lhe parece interessante, e deixar-se rodopiar por ele não lhe parece de todo mal, basta tão somente expor o peito ao mundo para que os redemoinhos soprem nas saídas do coração, anunciando ao mundo as novidades do momento, que são as mesmas de sempre com rótulos invertidos, ad infinitum. Cabeleira farta para disfarçar defeitos, obstinado a evocar uma imagem vigorosa, o máximo que logrou foi uma manifestação desastrada de insensatez juvenil; a tola criatura dava sinais de decadência já há algum tempo, porque isso é um processo lento que vai solapando aos poucos a integridade enquanto a vontade própria cresce, desprovida de firmeza, como o pé de feijão que leva à casa do gigante. Assim, tropeçou e por pouco não caiu na escumalha diante dos olhos de todas as testemunhas.
Em definitivo, não era um guerreiro. Mas que vejo eu nas minhas visões ao cair da tarde? Esse não era mais que Edmundi idoso teimando em passar por Justus! Contudo uma voz não queria calar e ecoa até a eternidade, bradando no céu, na terra, no deserto e no mar: Não deis às corujas, às aranhas, às serpentes e ao leviatã aquilo que é próprio do espírito! Por isso, essa classe de criaturas lerá e não entenderá uma palavra desse texto mas, como disse aquele notável - pode um macaco olhar-se no espelho e ver um apóstolo?
Renê Pereira Melo Vasconcellos é psicóloga, doutora em Ciências Políticas e Sociologia pela Universidad Pontificia de Salamanca, na Espanha.
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