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Naquele fim de domingo senti
morrer em mim a romântica recordação das feiras de
interior, das bancas que fervilhavam cheiros;
transbordavam prosperidade nas sacas de cereais com as
bocas abertas, generosamente francas, desafiando a fome
geral; ouvi silenciar, no mais recôndito do meu íntimo,
o vozear dissonante da feira cujo clamor, me fez perceber,
por primeira vez, a tremenda harmonia que habita nas
dissonâncias de que fala o notável Unamuno.
No instante em que cruzei
a linha férrea as cores vibrantes que animavam as
recordações da infância se fizeram noite; eis que, de
súbito, descortinou-se diante de mim um cenário tosco e
a feira daqueles dias deu lugar a um ambiente
fantasmagórico, - contudo real - e uma presença
esmagadoramente opressiva imperava nos espaços deslocando
as estruturas gerando incertezas.
O local em que me
situava, agora, estava completamente penetrado e moldado
por influências sociais bem distantes dele; sua
constituição não se limitava ao grau de visibilidade
presente na cena - a forma visível daquele lugar ocultava
relações mundializadas, complexas e distanciadas,
contudo eram essas relações que dava o tom gris e
prevaleciam naquele cenário rústico, apinhado de bancas
rudimentares que disputavam um canto com a pista destinada
ao tráfego, indiferente, dos carros.
Foi num lapso que o
nefasto poder apropriou-se do local, as forças globais
entremetendo-se nas locais pesaram no ambiente, cindindo o
tempo e o espaço; traçando contornos mundializados no
velho mercado público, delimitando - num recorte - a
área de ação onde os protagonistas, daquele cenário de
dores, já tomavam posição para a realização do infame
ato. Essa força insidiosa, frente a qual nenhuma
instituição, sistema, nem mesmo o estado tem podido,
melhor dito, - tem querido - impor limites, e ou, regular
seus desmandos; esse ente que ninguém vê, imaterial,
aterritorial, já insinuava sua influência, sua presença
já se fazia notar...
Era ele, o próprio
espírito do mundo do qual falou Hegel; ele espreitava e
oh... Lástimas das lástimas eu podia pressentir sua
presença medonha preenchendo todas as brechas numa
velocidade vertiginosa. Cruzei a linha férrea que separa
o Centro das margens e eis que de pronto, fez-se noite,
fez-se frio glacial, em tal escala, que qualquer bicho -
por desventura - que por ali errasse, aguçaria todos os
sentidos e farejaria a monstruosa força cujo cheiro acre
exalava crueldade.
Alerta, o bicho correria,
correria em desabalada carreira para longe da bestial
influência que dirige a Sociedade do Espetáculo...
Inquieto, nervoso e insone, portador de um estilo
camaleônico, que lhe permite operar em várias
dimensões, qual seja, no lugar e no não-lugar cujo poder
e influência cresce na medida de sua capacidade de
escamotear-se, ele estava ali por inteiro, sem
subterfúgios, sem preocupar-se em manter as aparências e
ocultar seus interesses, - estava integralmente ali: o
deus-mercado [1]!!!
Não como imagem ou
símbolo veiculado pela mídia, como daquela vez em que a
cidade ficou coalhada de outdoors que traziam o próprio
Hermes ou seria Mercúrio? representado no outdoor com seu
chapéu e sapatos alados portando, claro, sua grande
bolsa, anunciando que os melhores do comércio de Maceió
receberiam a estatueta dourada de Mercúrio - considerado
pelos romanos como protetor dos ladrões - era um
reconhecimento daquela entidade comercial pelo desempenho
dos seus associados naquele ano, mas levar para casa a
estatueta do deus só para os melhores do ramo.
Não é a essa
disseminação da imagem de Hermes por toda Maceió -
outdoors e estatuetas - que aludo agora. Não, trato aqui
ao contrário, menos que a imagem e a cópia sobejadamente
distribuídas na cidade naquela ocasião, refiro-me antes
a estarrecedora constatação de que nossos universos
estão sob o senhorio de um conjunto complexo de forças
articuladas e em íntima relação; essa poderosa
articulação de forças, contudo têm passado
desapercebidas pela maioria, e quando são vagamente
notadas, essas percepções são acompanhadas de
parcialidade e imprecisão.
Mas a crueza daquela
circunstância não deixava pairar dúvidas; naquele
instante pude entender com exatidão o que querem dizer os
neoliberais com o “caráter transcendental” do
merca-deus e o tanto da “dor do outro” que este
discurso oculta, quando, placidamente, anuncia os “sacrifícios
necessários” exigidos pelas leis do mercado em nome da
eficiência e do progresso.
Quando as coisas são
colocadas nesses termos um holocausto passa a ser
considerado do ponto de vista estratégico, uma
deportação em massa uma questão de economia e a
violência contra o indivíduo simples acertos de contas -
absolutamente tudo, é embrulhado na nebulosa do
relativismo.
Generalidades, carentes
de significados, sem sombra de dúvida; tanta generalidade
nega o vivido porque não transmite absolutamente nada das
subjetividades em questão, e como se sabe a subjetividade
é a verdade! Logo... Foi um choque constatar in locu que
o neoliberalismo é a ideologia hegemônica da atualidade,
que o seu deus, o mercado, é o príncipe desse século e
estava ali, ligando vastos mecanismos impessoais a
existência de pessoas pobres e obscuras, meros fantoches
econômicos ou seriam culturais?
Mas, o que faria Hermes,
o veloz mensageiro dos gregos, ou o seu correspondente
romano Mercúrio, deus protetor do comércio e dos lucros,
naquele cantinho de minigâncias, típico do nosso pobre
mercado público? Que faria o deus do comércio longe dos
altos circuitos do mercado mundial, ali, num lugar onde
perambulam as hordas e os desfavorecidos sociais?
Desentendera-se da agenda da OMC (Organização Mundial do
Comércio), em cujos palácios (Associações Comerciais),
espalhados pelo mundo, têm os templos de adoração
dedicados à si? O que o levara a distrair-se do seu papel
de vigilante do comércio planetário, primeiro
mandamento, que confiara ao zelo mercantil da OMC?
Quase me esquecia que
Hermes, o espertalhão, transita com desenvoltura e
rapidez nas várias dimensões - ocupando-se dos
interesses gerais do mundo, no céu, na terra e nos
infernos. Theatrum mundo. O recorte de mundo em que me
encontrava está encravado num feixe de ruas, num
entroncamento que desemboca na rua 16 de setembro. Era
para a rua que fala da Independência de Alagoas que eu me
dirigia naquela tardezinha de domingo. De dentro do
automóvel tudo parecia calmo (violance du calme?) até
que ao longe divisei alguns vultos que se movimentavam em
direção a pista, diminui a velocidade a fim de dar uma
distância segura aos pedestres.
Paralelo às bancas que
margeavam a estreita pista seguia um senhor que apressava
os passos no seu caminho, após ele vinha outro homem que
avançava contra os limites da pista a cada vez que olhava
para trás perdendo assim seu norte. Diminui a marcha e
não sem um desconforto imediato vi uma menina saindo das
entranhas escuras daquele emaranhado de bancas, carregando
uma mochila surrada nas costas e ares de cheira-cola, seus
quinze anos já não cabiam na mini-saia de nove que
usava; quando ia atravessar o que restou da via estava
visivelmente despistada, imagino que como se descortinou o
mercado para mim se descortinou a pista para ela: de
súbito!
Naquele instante a luz do
dia já havia fugido e o cenário era de turbulências. O
velho com aspecto de alcoólatra olhava a menina com um
sorriso sujo e ela totalmente desavisada - andava como se
estivesse sozinha no mundo. Os modos do velho já
provocavam em mim uma repulsa indizível, mas o que
sucedeu na seqüência tem o nome de barbárie. Vindo
após ela, quatro tipos jovens, relativamente bem trajados
- desviaram-se do automóvel sem, contudo tirar os olhos
de sua presa; saídos do fundo da noite surpreenderam até
o velho que não entendia o que vinha a ser aqueles acenos
que o que parecia ser o líder do grupo realizava,
gesticulando com as mãos fazia referência a menina e a
um beco escuro formado por uma viela de bancas.
Com um gesto impaciente e
outro obsceno o que vinha atrás gritou, - entre os dentes
- o que o outro que gesticulava queria transmitir com sua
mímica torpe: empurra, empurra!!! Vendo surpreendida e
frustrada sua malícia, pelos invasores, o velho não
conseguiu esboçar a mais mínima reação;
antecipando-se, o que ia adiante do bando empurrou, com
rapidez, a menina no estreito escuro e todos desapareceram
naquele fosso imundo. Aquela altura o mercado público de
Maceió virou Vicus Tuscus, o antigo e dissoluto bairro
etrusco de Roma no mesmo instante em que eu, melhor dito,
o meu carro, atingiu a rua 16 de setembro, nome em
homenagem a independência de Alagoas.
Constatando nessa
passagem que o mundo contemporâneo se compõe - ou se
decompõe? - de uma pluralidade de espaços e
temporalidades heterogêneos justapostos e divorciados.
Já não havia dúvidas. O deus-mercado viera buscar os
tão propalados “sacrifícios necessários” que
proclamam os profetas neoliberais no alto das tribunas e
na Academia; viera requerer o sacrifício no altar que a
eficiência da “mão invisível” erigiu naquele
deserto urbano em questão de segundos!
Os que conhecem a
versatilidade de Hermes sabem que ele não se ocupa apenas
de reuniões de cúpula, negócios e de como obter
fortuna, a ele lhe encanta a trapaça, o roubo, a
iniqüidade e a mentira. Não foi a ele que foi dada a
incumbência de excluir a ninfa Lara e levá-la para as
trevas exteriores? Não foi o próprio Hermes que a violou
sem pejo, quando chegaram nas baixezas dos caminhos
escabrosos onde mora a impunidade? Não é ele sabedor que
a geografia, por onde vagueia o excluído, é
acintosamente ignorada por todos e, sobretudo, que o
horror disseminado nos corpos é implacavelmente
silenciado? Não é esse, aquele, cujo maior atributo é o
engano e com ele, o espírito do engano, se garante que,
em nome do “progresso e da paz geral” as violências
cometidas contra os que já não são mais necessários,
ou seja, os desnecessários, - taxados pelo mercado de
incompetentes - serão permitidas e até
incentivadas?
Sim... Violências que
são permitidas em função de um bem maior que se espera
alcançar no futuro da pós-modernidade, ou seja, um
futuro que é sempre presente e nunca se esgota. É dessa
sutileza de sofista que o mercado lança mão para exercer
o direito a violência e fazer valer suas leis, - as leis
do mercado - com o aval e a condescendência da quase
totalidade da sociedade - enlanguescida diante das
promessas neoliberais de um “paraíso artificial” que
o progresso e as tecnologias promoverão para todos.
Diante de tanta
astúcia, não me estranha que a eloqüente retórica e a
arte do bem falar sejam atributos marcantes desse ente
cuja lábia o tornou patrono dos advogados; mas me
espanta, infinitamente, que se diga por aí, que foi
Hermes, o deus-mercado, quem multiplicou e fortaleceu as
relações sociais, fortaleceu??? . Como isso é
possível, ainda não atinei, haja vista que a violência
é o substrato das relações que o mercado estabelece,
traduzindo-se na máxima da “concorrência de todos
contra todos”.
Competindo, excluindo,
silenciando é assim que, a rigor, se estabelecem as
relações de mercado, mas quem sabe não é precisamente
esse aspecto, ou seja, a estratégia de tornar invisível
a violência contra o excluído empurrando-o para as
trevas exteriores de modo que perca a visibilidade, a voz,
e a honra ou no outro sentido bombardear a sociedade de
imagens violentas através dos meios de comunicação até
que, pelo excesso, já ninguém veja mais nada, sequer se
aperceba de um só ato vil e todos comemoremos em transe,
o êxtase da comunicação sem nenhum halo de proteção
privada, nem mesmo seu próprio corpo. Silenciar,
difamando, e sujeitando a violência aqueles que ele
exclui é uma atribuição que o deus desse século
executa com um orgulho indisfarçável.
A lógica do mercado gira
em torno da eficiência e do lucro, logo a automação foi
muito bem vinda e bem quista por todos, contudo nós não
contávamos que tanto conforto na vida privada fomentasse
o descarte de vidas humanas como hoje se vê - os
excluídos do mercado tornaram-se descartados sociais.
Rotulados como mercadoria vencida, foram taxados de
incompetentes, logicamente desnecessários e em nome do
progresso, merecidamente excluídos.
E... Na condição de
desnecessários passíveis de sofrer qualquer tipo de
violência até mesmo, esconjuro, a eliminação. Lara
confirmaria minhas palavras sobre esse tema, respaldaria,
se pudesse; sim... aquela Lara, taxada por Hermes de “charlatona”
- por ter tido a coragem de denunciar suas fraudes, se
pudesse faria suas as minhas palavras. A pobre Lara, sem
nenhuma proteção se opôs ao deus e por isso foi
severamente castigada com a exclusão social e a
violência que se seguiu irrompeu do encontro da
oportunidade com a impotência. O próprio Hermes se
encarregou de conduzi-la para as sombras exteriores, para
a terra do seu desterro, onde o silêncio é filho do
medo. Próximo do seu destino, afastados do caminho, na
altura das veredas torcidas, Hermes arrancou a língua da
menina e a violentou ao abrigo da impunidade e ao som das
flautas de Pã[2].
Mas pasmem, nessa atroz
jornada o deus-mercado cumpria uma missão: levar a termo
o processo de exclusão social daquela criatura em nome da
paz e do progresso. Lara confirmaria tudo, se pudesse....
Se tivesse voz! Em circunstâncias de pós-modernidade o
deus-mercado não se dá ao trabalho de levar suas
vítimas à lugares ermos: os tempos e espaços são
justapostos e de mais a mais, o individualismo, a
indiferença e a ganância trabalham em conjunto para
isolar as fronteiras e relativizar as violências
possíveis.
Tudo ocorreu em questão
de segundos, e o impressionante da história é que nenhum
deles se deu conta da minha presença, só consideraram
que um veículo passava por ali, - acostumados que estão
a agir em meio a uma urbanidade indiferente; pessoas
apressadas, dentro de seus automóveis, envolvidas com
seus próprios negócios, indiferentes aos outros mundos
sofridos e contíguos.
Nesse deserto que se
chama humanidade o desespero e a impotência eram as
agonias que calaram o grito na minha garganta, tomada de
angústia e perplexidade num átimo me vi na rua 16 de
setembro e constatei em dores o quanto Alagoas está longe
da Independência que propaga suas autoridades e os nomes
de suas ruas. Enquanto seus filhos e filhas, as criaturas
de vida obscura, forem assoladas nos trilhos urbanus somos
obrigados a admitir que a ética e a justiça acionadas
até o presente não atingiram o escopo pretendido.
No lugar da justiça há
impiedade e no lugar da independência ainda mais
impiedade. Um ou outro mais atrevido pode falar em
liberdade em circunstâncias de pós-modernidade, mas não
sem um pigarro constrangido. Como os pais da antiguidade
utilizavam a trombeta, toquei a buzina sem parar e
disparei procurando a luz e no primeiro lugar que vi luzes
parei o carro, corri procurando ajuda, para mim, para a
menina, para o futuro. Atropelando as palavras, dando
livre curso à minha perplexidade e necessidade de
justiça contei a um jovem o sucedido tenebroso. Ele
calmamente me exortou à calma e tanta frieza eu atribui
à sua imaturidade emocional e espiritual; que desilusão
a minha, procurava a luz e encontrei as luzes que
acenderam tanto a ponto de deslumbrar cegando. Se eu
estava lá, como testemunha ocular do ato medonho como
poderia omitir-me?
Desviei-me
rapidamente para outro e falei conforme o sucedido, na
esperança de encontrar ajuda e consolo entre os anciãos,
mais a anciã de anos me tornou a responder em
conformidade às primeiras palavras do jovem. Essa é a
lição mais pérfida que os teólogos da mundialização
lograram incluir no seu ideário, qual seja, o relativismo
insidioso que revela a metástase e cujos focos eclodem em
vários pontos do tecido social comprometendo e
fragmentando o discurso político, ético e o
religioso.
O espírito que impera no
presente século, se engrandeceu, quase sem resistência,
penetrando profundamente nas entranhas da economia e da
política, mas foi no social que ele cravou profundamente
suas garras. Sem a proteção do Estado, sem as garantias
conquistadas no decorrer dos séculos e sem, praticamente,
nenhuma resistência teórica, pois os membros da Academia
oscilam entre atônitos e ou indiferentes, seja por
ignorância, ou pior, por indiferença, mas o fato é que
a distração é generalizada - o mundo mergulha numa
crise cultural sem precedentes porque não vislumbra
saída em nenhuma grande narrativa, o fosso das vítimas
sacrificadas em holocaustos ao deus-mercado se alarga e
aprofunda e a decomposição do corpo social ameaça,
inclusive, a vida dos bem-integrados do mercado; os
intelectuais, governantes e religiosos dizem: há paz! Há
paz! Quando não há paz.
Contudo, nem tudo está
perdido, a esperança continua dentro da caixa, e num
sentido Bauman a devolve ao indivíduo para quem “a
plenitude de opção moral e de responsabilidade” se
descortina agora de modo especial e significativo. Para
amarrar usando as linhas de Soren Kierkegaard, digamos,
que a salvação está no indivíduo - a categoria por
excelência..
René Pereira Melo
Vasconcellos é psicóloga, doutora em Sociologia e
Ciências Políticas pela Universidad Pontifícia de
Salamanca, Espanha
[1] Hermes é o
deus-mercado para os gregos e Mercúrio seu correspondente
romano; as palavras comércio, mercado e mercenário
derivam do latim merx (mercadoria).
[2] Pã, divindade pastoril, filho de Hermes; é tido,
também, como símbolo da obscuridade porque causa nos
homens os terrores pânicos, isto é, sem motivo. É
reconhecido, igualmente, como deus dos caçadores - quando
ia à caça, mais do que os animais ferozes era o terror
das ninfas, a quem perseguia com os seus ardores amorosos.
Está sempre atrás de emboscadas, atrás dos rochedos e
das moitas, é o deus do pânico.
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