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Os
tempos e os dias carregam as marcas da história,
tome-se o exemplo de Júlio César, o imperador romano,
que usou de seu poder e influência e mudou o calendário
Gregoriano criando, o mês de julho, em sua própria
homenagem, para se autoglorificar; depois, seguido por
seu sobrinho e sucessor Otávio Augusto, que quis
acrescentar a imitação uma nota personalizada quando
incluiu no calendário Juliano o mês de agosto (que tem
um dia a mais que julho). Manobras vaidosas de César,
que significa senhor do mundo, para sobreviver ao tempo
e a história. Contudo, não deixa de ser uma ironia
eterna, que um homem simples, sem pretender nenhum tipo
de poder temporal, que caminhou pela terra na época do
Império romano, sem compactuar com os anseios de honra
e glória do poder político e econômico, que foi
assassinado como um malfeitor vulgar (em morte de cruz),
por esses mesmos romanos, justo esse, que passou pela
terra servindo mas, cujo impacto das atitudes pessoais
traçou um marco de contradição que é um divisor na
história, ou seja, antes e depois Dele. É pelo seu
nome que se separa os feitos bons e maus de todos os
homens - antes de Cristo e depois de Cristo! Antes de
Cristo e depois de Cristo, esse é um mistério que um César,
que cogita as coisas de César, jamais entenderá!
Perplexa
ao constatar com que velocidade mais um ano chega ao
fim, constato que, junto com as despedidas do ano que se
acaba, surge concomitantemente a esperança do ano que
se inicia; aguardo esse momento onde o tempo e a história
ficam em suspenso porque o que era já foi e aquilo que
foi passado é o que virá a ser e quando se
presentificar imediatamente já será passado... E nesse
movimento dos tempos, ou melhor, na quietude infinita
dos tempos vivo a eternidade num instante quando o que
foi já não é, e o que é ainda não foi...
No espanto do instante em que o tempo não existe
e o que passou, que já não existe mais, se depara
frente a frente com o que virá, logo ainda não chegou,
portanto não é... Nesse ponto minh´alma expectante já
começa a pressentir a poderosa presença do alfa e do
ômega, do princípio e do fim, que é o Uno e que se
revela na infinita presença que se renova num lapso de
eternidade.
Na
retrospectiva dos dias vejo o fim e o começo do ano e
constato que o encontro do fim com o início resulta no
chamamento de Deus, unindo as eras, apagando as
fronteiras, ali onde eu não sou, para ser só reflexão
e esperança... Sim, esperança, o fim do ano termina
com uma esperança, no transcurso dos meses que, não
por acaso, são 12, quando a vida foi vivida dia a dia,
mês a mês, pena a pena, luta a luta, trazendo
alegrias, mas também tristezas e incertezas, e depois
que os 12 meses passam, a boa nova chega, renovando as
forças para mais outra jornada: dezembro trás no seu
fim um recomeço, uma esperança que se renova na presença
da fé: o Natal, que faz a alegria das crianças
naquelas onde não foi destruída a esperança e
pisoteado o amor , os autênticos cidadãos do reino.
Assim,
chegou o final de mais um ano, mas ainda não chegou o
Fim da História, como afirma o teólogo da pós-modernidade
Fukuyama. Enquanto houver um homem pós-moderno, - e há
muitos -, pousando de deus e se estabelecendo no mundo,
na força do seu poder, não está caracterizado o Fim
da história. O Fim vem, mas somente quando aquele que
dividiu a história em antes e depois Dele volte e diga:
Basta! Enquanto isso não acontece, os dias e os meses
se sucedem num retorno eterno, que se renova a cada
final: em dezembro vivo o Natal e no meio da jornada, em
junho, sinto no sopro dos ventos, na cara dos dias a
forte personalidade de João, o Batista, preparando o
caminho para Aquele que virá e não tardará!
Em
junho os ventos sopram e agitam a natureza, que ainda
geme e sofre e clama
toda ela - até os dias de hoje, esperando Aquele
que vem... Os grãos de areia se multiplicaram nas
palavras daquele que clamou no deserto e os homens não
lhe quiseram ouvir. Porque ouvir é concordar!!! E João
foi até as grandes águas de Sinim e ali batizou nas águas
e suas palavras ficaram impressas nas águas porque as
raposas não lhe quiseram ouvir.
Porque ouvir é concordar!!! E a natureza até
hoje clama no deserto, nas águas e nos ventos, as
palavras de João que os homens não podem sufocar,
afogar ou cessar... E nas asas dos ventos voam as
palavras de João, atravessando o espaço, o tempo e
todas as dimensões das coisas visíveis.
Foi
num dia de junho, na tristeza da caverna, que escutei as
palavras de João, como num lamento num sisio suave que
encheu a terra de dor, dor de parturiente que ainda não
pariu o Dia Perfeito, quando toda lágrima será
enxugada!
Os
dias em junho
Agitados, os ventos frios do deserto sopram nos
quatro cantos da cidade e nada está encoberto ao seu
labor; seu caráter penetrante contorna ruas, percorre
palácios, casas, mercados e favelas
na preparação do caminho encontra o homem e
penetra no mais interior dos seus ossos sondando sua
dureza. Nesse clima, a iluminada cidade do sol
habituada que é, aos calores de mais de 40º
graus
esfria e retrocede, desejosa, exclusivamente, de
aconchegar-se na mornidão da primeira cobertura que
aparecer, para esperar que, a seu bel prazer, as
temperaturas subam...
Mas
espera em vão; em junho o dia não atinge o ápice,
isto é, sua expansão plena naquilo que se refere á
duração da luminosidade na jornada; a bem da verdade,
ao invés de crescer ele escolhe diminuir e precisamente
nesse instante eternizado ele atinge a categoria do
extraordinário. Retornando eternamente, o dia em junho
se faz reversivo quando impõe limites a si mesmo;
paciente quando se contém; zeloso porque quer diminuir
para que outro, que não ele, cresça; humilde quando se
faz nublado e propositadamente evita irromper na força
do seu poder que é e que era, sempre, em alta potência.
Combatendo com a sua força, negou-se a si mesmo quando
renunciou alcançar a plenitude de ser, O Dia Perfeito,
- apesar de toda luz que continha sua luz. E onde reside
sua vitória? Ali, onde dominou seu poder e escondeu sua
força, numa renúncia voluntária que se exerceu no
tremendo poder de dizer não! Eternamente não!!!
Combateu o assombroso combate, travado com aquele que
era o mais forte, ou seja, ele mesmo; vencendo a si
mesmo, saltou a muralha da legião das pluralidades e
tornou-se um dia de luz singular. Desse modo,
converteu-se no mais ilustre entre os vencedores:
afinal, ninguém é mais forte que ele próprio.
E
a paisagem no céu de junho transborda de nuvens num
desenho que se repete nos seus dias mais curtos e nas
suas noites mais longas... Utilizando uma linguagem estética
Junho seria morte-luz, isto é, as primeiras cores que o
artista põe na tela, dispostas em tons suaves, a fim de
não provocar confusão ou competição com a figura, -
aquela que se destaca na tela para assumir o foco, se
fazendo prevalecer plena de significação no todo da
obra. Contudo, pode-se dizer que no conjunto definitivo
da obra há uma sintonia perfeita entre figura e fundo,
e que em nenhum momento aquele perdeu sua importância,
posto que, nele, ou através dele, a figura foi
introduzida
no ambiente; em verdade, a condição morte-luz
é absolutamente circunstancial trata-se de uma preparação
para receber os tons definitivos. Assim é junho nos
seus dias mais curtos e nas suas noites mais longas
frente a dezembro que guarda no seu transcurso dias mais
longos e noites mais curtas
é em junho que os dias preparam o caminho para
em dezembro o dia nascer perfeito. Não é sem propósito
que o dia em dezembro transborda luminosidade,
permitindo que a luz permaneça por mais tempo diante
dos olhos dos homens.
Nesse
ponto é necessário evitar as ligeirezas e os tropeços
dos ornatos pomposos próprios dos discursos desprovidos
de significação; porque, até mesmo, entre luzes e
luzes há distinção, sendo algumas delas, luzes do
tipo, trevas!... Quanta diversidade entre as luzes
naturais, porque uma coisa é a luz do sol, outra a da
lua, e que dissemelhança infinita entre as estrelas e o
que se dirá dos homens que andam na sua própria luz???
Claro, porque nem tudo que resplandece é sarça
ardente! Coisa pavorosa é dar crédito a toda ou
qualquer aparência de luz.
Esperemos,
pois o Natal ser engendrado nos nossos olhos, que é a
janela da alma, concebido nos nossos corações, que é
a fonte de tudo, e que Ele possa crescer com o dia das
nossas atitudes, que é o que verdadeiramente importa!
Sem retroceder jamais, a fim de que alcancemos o Dia
Perfeito.
Renê Pereira Melo Vasconcellos é psicóloga, doutora em Ciências Políticas e Sociologia pela Universidad Pontificia de Salamanca, na Espanha.
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