As
dificuldades nos relacionamentos interpessoais se
agravaram, substancialmente, nos tempos pós-modernos: o
ardor consumista ganhou abrangência e eficácia na
velocidade da informação cujo ritmo alucinante defende
a mudança contínua e incessante como a verdade
absoluta do fim dos tempos. A imposição à mudança
ganhou status de mantra cuja cantinela reza a sentença:
tem que mudar, obrigatoriamente, necessariamente e
sempre!!! Segundo essa ótica, quem não muda fica para
trás, é retrógrado e não vai conseguir sobreviver no
futuro; essa exigência virou lugar comum nas empresas,
entre a classe política (inclusive entre aqueles que
continuam os mesmos), no meio acadêmico, que deu
ouvidos ao canto da sereia alienando-se do seu papel
crítico- social ao ponto de sucumbir diante do luxuoso
disfarce que escondia o monstro atroz.
Contudo, nada foi mais
devastador que o impacto exercido pelo clamor das
mudanças no âmbito das relações humanas; já não se
pode falar em relacionamentos afetivos, amorosos e menos
ainda, íntimos, já que a velocidade das mudanças
atingiu como um dardo inflamado a relação homem-mulher
rechaçando a intensidade e repudiando a profundidade
dos relacionamentos que anelam a eternidade - única
dimensão possível para a plenitude do amor. No
torvelinho das mudanças, o que conta é o instante
fugidio, a efemeridade voraz do momento, onde o presente
é consumido num desvanecer eterno cuja descontinuidade
abortiva desautoriza qualquer possibilidade de amanhã.
Esse é o espírito da Sociedade
de Consumo cuja marca registrada é a superficialidade,
viandante contumaz das esferas neoliberais, em cujos
circuitos se estabelece o ciclo vicioso do “uso e
descarte” para sacrifício idólatra ao deus-mercado.
Nesse sentido, o deus neoliberal tem engordado com os
holocaustos oferecidos a ele e logrado ocupar espaços
estratégicos na subjetividade de seus devotados ascetas
cujo deslumbre contemplativo se rende frente à lógica
do mercado, que agora vemos ser transplantada para os
relacionamentos pessoais: a lógica perversa do lucro
dando lugar à perversão no âmbito do Amor. A lógica
da cultura de consumo, subordinada aos critérios
empresariais do lucro se articula com a ânsia do “cada
vez mais”, para que da necessidade insaciável surja a
frustrante insatisfação. De tanto usar e descartar as
“coisas” o homem do século XXI passou a usar e
descartar relacionamentos - idéia-força que norteia a
práxis pós-moderna disseminada entre adolescentes,
jovens e também adultos, qual seja a cultura de Ficar!
Não é de se espantar afinal
que o shopping center seja o point preferido de jovens e
adolescentes, é ali, mas não só, que Maricota “desenrola”
Mário para Mariazinha (que continua indo atrás das
outras); num sentido, querendo ou não, Mariazinha
embrulhada para o consumo, se dispõe a ser desenrolada,
usada, com toda rapidez e nenhuma eficácia... para
depois, ser mercadoria descartada como as outras. Com um
pouco de sorte, depois de uma reciclagem rápida diante
do espelhinho poderá ser reutilizada e fazer
combinações diversas com outros pares. Como um
chiclete que se masca e joga fora, Maria sabor morango
vai direto pra lixeira, Joaquim sabor maçã verde, não
teve a mesma sorte e foi deixado ali mesmo na sarjeta,
que se dirá da Marieta, gute tutti-frutti, foi usada e
reprovada acusada pela galera de halitose!!!
Curiosamente, apesar de ser “permitido” às garotas
adotarem o mesmo estilo dos rapazes, - o que a priori
poderia parecer uma “liberação feminina”, - aquela
que já ficou “com todos os meninos da escola” fica
mal-falada na área, ao passo que, se o garoto apresenta
a mesma performance, ele, ganhará status
diferenciado!!! É o velho espírito da dominação
machista re-atualizado sob égide da incoerência e do
cinismo hipócrita típico da classe média.
Não se pode dizer que haja
critérios para ficar, grandes exigências, nem
pensar... Aliás, quem fica não pensa! Ficar ali, aqui
e também acolá, não importa o lugar é a regra
básica. Tampouco quando, como e com quem, afinal, a
onda é essa: ficar!!! Diga-se de passagem que na
maioria das vezes se fica por ficar, para depois ter o
que contar. o que implica estar com todos e qualquer um,
sucessiva e seqüencialmente, um após o outro, porque o
que vale aqui é a quantidade e os recordes que se pode
alcançar nesse pit stop sexual. Como as ondas que se
segue uma a uma, sem que um se aperceba das diferenças
entre a anterior e a imediatamente após, assim se vai
ficando... Como a água, inconstante e inquieta,
intermitentemente, sucessivamente como as ondas do mar
que com grande ímpeto se levantam para imediatamente se
desfazer em espuma, assim o relacionamento de quem fica
se desfaz ... Dá em água, vira espuma.... Superficial
como as espumas do mar que de profundo mesmo só a
sujidade tragada da imensidão do turbulento mar
revolto. Turbulentos também são esses tempos que
passam sobre nós com suas ondas agitadas que
inviabilizam um olhar mais demorado, aprofundado porque
mal se formou já se desfez.
Diante destas forças claramente
desintegradoras do tecido social, começa a se formar
situações de insustentabilidade social quando os
cordões que compõem a margem do processo econômico
engrossam cada vez mais, composto por uma massa
gigantesca de famintos, indigentes, analfabetos,
desempregados e agora mal-amados. Enfim, os chagados de
uma sociedade controlada por elites cada vez menores,
contudo respaldadas por uma classe média assustada com
a proximidade da decadência; assim, desesperada cede à
ilusão da vida sem vínculos firmes, estabelece pactos
para receber as migalhas do poder e perpetuá-lo, sem
dar-se conta que junto com a fatura empurra seu futuro
no abismo sem fundo das superfluidades.
Logo, torna-se compreensível a
interpretação dada por alguns autores quando propõem
soluções que permitam uma maior coesão social num
mundo de exclusões, neoliberalismo e concorrências:
“as pessoas podem supor, erroneamente, que
conseguirão o equilíbrio sem assumir compromissos
sérios. De algum modo, por não estarem presos a nada,
costumam acreditar que assim têm mais liberdade para
jogar melhor com os diferentes elementos de suas vidas.
Isso, porém, exacerba fatalmente a incerteza e a
ansiedade.
Assumir compromissos dá às
pessoas a segurança e a base para desenvolver suas
plenas capacidades individuais. Com a crescente
flexibilização do emprego, o compromisso na esfera do
trabalho vai se tornando mais difícil e pode mesmo ser
desaconselhado como fundamento de segurança e
identidade pessoal a longo prazo. Uma das alternativas
é o compromisso no âmbito do amor. Pode não ser
estranho como parece ajudar os jovens a compreender
melhor como o envolvimento amoroso é capaz de
auxiliá-los positivamente a fomentar maior coesão
social em um futuro próximo”.PAHL (1997).
Ironicamente aquele que pensa
que trocar sistematicamente de parceiro vai lhe
proporcionar novidade de vida, acaba por cair na mesmice
convertendo-se num escravo solitário de seus próprios
interesses; restringindo seus relacionamentos à
dimensão sexual limita às outras áreas de sua
existência e não pode fugir da sensação de vazio e
irrealização. De outra sorte, aquele que estabelece
uma relação com a convicção de que o Amor é o
requisito da plenitude, usufrui da prazerosa
exploração do encontro genuíno com o outro, que é o
seu próximo e companheiro na misteriosa aventura do
salto rumo ao infinito: liberto das amarras do medo,
para se encontrar, se completar até alcançar a suprema
glória de se fazerem um. Num mundo de crise,
violências e incertezas estabelecer uma relação
fundada no Amor proporciona segurança e uma sensação
de pertinência a algo maior, que transcende a própria
existência e atinge as alturas da eternidade.