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Este
conto de fadas se desenvolve em Utopia ou em Seldwyla
ou, talvez, em todas as partes. Ali reinava, pois, uma
terrível desigualdade entre os cidadãos. É verdade
que cada um tinha sua parcela de terra e que esta lhe
proporcionava tanto quanto necessitava, sempre que não
necessitasse mais do que proporcionava. Havia aquelas
pessoas, no entanto, que podiam se dar ao luxo de
cultivar rosas em suas pequenas propriedades. Seja
porque possuíam mais dinheiro que os outros ou porque
se dedicavam mais tempo ou tivessem precisamente o tipo
de solo e o sol adequado, o certo é que em suas terras
havia rosas e nas dos outros não. Sem reparar muito
nisso, aceitaram isto durante um longo período de tempo
sem ressentimentos, como uma ordem natural que divide
estas posses com tanta iniqüidade com a beleza e a feiúra
e ou o juízo e a insensatez. Mas como os possuidores de
rosas começaram a multiplicá-las e a aperfeiçoá-las
mediante brotos, gerou-se um surdo ressentimento entre
os demais cidadãos. Um agitador, com palavras
inflamadas, os persuadiu de que o direito de possuir
rosas era inerente a todos e de que era necessário,
enfim deter a casualidade cega, que só havia outorgado
a alguns poucos; outro gritava à multidão que o tempo
de indiferença havia passado e que o grito de guerra na
luta pela cultura superior era: “cobiçar!”,
“deves ambicionar!”. Um terceiro demonstrava,
mediante a lógica e a botânica, que as rosas, por sua
tendência à multiplicação, acabariam se acumulando
por si só, de maneira tal que seus poucos proprietários,
como os hóspedes de Heliogábalo,
se asfixiariam e todas as suas possessões, sem mais,
teriam de recair sobre a massa, assim como este inevitável
processo de expropriação quer poderia facilitar e
acelerar. Mas de modo algum eram os baixos instintos da
inveja, da cobiça ou da avidez por prazer que agitava a
multidão. Assim como o aroma das rosas não só agrada
o sentido (pobre daquele que nada mais percebe com o
nariz!), senão que, como doce excitação, nos
atravessa até chegar ao mais delicado e fundo de nosso
ser, no grito do povo se uniram os instintos
excessivamente humanos com os últimos elos da alma e as
reflexões culturais mais profundas. Surgiu um partido
revolucionário e, em oposição, outro que era
conservador, o dos possuidores de rosas que não só
queriam defender sua propriedade como também o encanto
delas, que só agora haviam tomado consciência: ter
algo que os outros invejam e desejam. Entretanto, estes
estavam preparando uma lei que lhes assegurava, mediante
o monopólio, a possessão ancestral, herdada e histórica
das rosas. Estabeleceu-se um levantamento que terminou
com a vitória do partido da igualdade. E de fato
terminou assim principalmente porque a idéia moral que
inspirava este partido havia se introduzido, de maneira
furtiva, no campo do inimigo; acima de todos os
interesses opostos ter-se-ia alcançado o ideal da justiça
social e sua vitória exterior nada mais selara da
anterior, que já havia conseguido.
Assim
se alcançou por fim a paz, a igualdade, a felicidade.
As rosas floresciam em cada mínima porção de terra
que possuísse um cidadão, e a nova distribuição da
terra, realizada simultaneamente, proporcionou a cada um
as mesmas condições para sua prosperidade. Tudo quanto
o ordenamento externo das coisas pode facilitar aos
homens foi concedido agora com a mais eqüitativa divisão
de seu benefício. Não obstante, as porções não
podiam certamente resultar uniformes como nos termos de
uma equação matemática. Seja como for, um teria mão
melhor para o cultivo das rosas, o outro, um pouco mais
de sol, um terceiro, um enxerto mais adequado; pois a
natureza se imiscui sempre, ainda que somente na forma
de uma pitada e sem nenhum tipo de compromisso, na
simetria dos planos humanos. Sem embargo, estas
desigualdades se tomavam como algo que teria que se
resignar inevitavelmente, da mesma maneira em que pouco
tempo atrás se aceitava aquelas grandes diferenças,
agora abolidas: sim, ante aquele blefe colossal, esta quantidade
negligente não se percebia em absoluto.
No
entanto, as coisas tomaram um rumo totalmente diferente,
e isto devido a uma singular característica da alma
humana tão profundamente enraizada nela e ramificada em
sua experiência cotidiana que foi descoberta somente
depois de séculos de reflexões sobre nosso espírito.
Pois a alma não pode sentir nada que não seja a
diferença entre seu movimento e estimulação presentes
e os anteriores; estes ressoam nela de maneira enigmática
e conformam o segundo plano (ou background) a partir do
qual o instante presente obtém e mede seu conteúdo e
sua significação. Por isso a vida, qualquer que seja a
altura ou a profundidade com que se transcorre, nos
parece tão vazia e indiferente quando faltam as diferenças
interiores, ao ponto de que tememos que a bem-aventurança
ininterrupta do Paraíso seja um tédio igualmente
ininterrupto. A perda de centenas de milhões não faz
mais infeliz o rico que o pobre um par de táler e, nos
primeiros passos do amor, um dissimulado aperto de mãos
não preenche menos de felicidade que nos mais altos o
alcance final do prazer total. Não é, então, a
magnitude absoluta dos estímulos vitais que sentimos
nem a altura ou profundidade do nível médio de nossa
satisfação ou privação, senão tão somente o
contraste entre as diferenças de suas realizações
individuais. Por isso, quem é ascendido ou rebaixado de
um nível de vida a outro totalmente distinto, depois de
um breve período de adaptação, responderá às variações
e diferenças dentro do novo nível com exatamente os
mesmos sentimentos de alegria e dor com que se respondia
às variações e diferenças maiores ou menores do
estado anterior. Nossa alma se assemelha a esses
delicados mecanismos que reagem a cada mudança ou troca
das circunstâncias externas com uma configuração
modificada automaticamente, de tal modo que seu
rendimento permanece sempre igual. E se nossa relação
com os outros seres, nossas diferenças de altura e
profundidade se interiorizam como sentimentos, isto se
manifesta também naqueles, pois somos seres tão suscetíveis
às diferenças e, por sua vez, tão adaptáveis que
podemos, de modo definitivo, associar a magnitude
modificada do estímulo com a magnitude do sentimento.
Aquilo
durou enquanto podia durar; mas um dia terminou a adaptação
e aquelas mínimas diferenças no calor e forma, no
aroma e o encanto das rosas, com as quais a natureza se
manifesta, como última instância, acima de todos os
intentos de igualdade, despertaram o mesmo ódio e a
mesma inveja, a mesma arrogância de um lado, o mesmo
sentimento de despojo do outro. E novamente começaram
traiçoeiras teorias a penetrar em nossos espíritos:
Para que serve então a propriedade, senão para elevar
os homens a um estágio superior de felicidade? Os bens
externos não cobram sentidos somente quando despertam
sentimentos de satisfação, sem os quais seriam uma
casca sem caroço, uma chamada aos ouvidos surdos? Por
acaso a indignação contra a situação prévia não
provém da dor da desigualdade, da privação, da
injustiça? Não se soluciona tudo desordenando
exteriormente os bens de um lado para o outro e deixando
o interior como antes? Uma mera troca de máscaras! Se
disseminou a terrível idéia de que não existe nada
mais indiferente que as rosas se a natureza vincula com
sua possessão os mesmos sentimentos de desigualdade que
com sua privação. Foi justamente o erro histórico do
mundo transportar a causa da felicidade ou da dor a
possuir ou não possuir objetos. Não, não é se tenho
ou não tenho algo o que determina meus sentimentos, senão
se outros não possuem ou possuem. Só as almas mais
delicadas e puras, que são suficientemente ricas para
viver do mais íntimo de si, desejam acolher com gosto o
objeto, sem violentar emocionalmente seus limites; a
massa, em troca, não se contenta com o encanto da rosa,
senão que associa sua emoção com a possessão, porque
seu vizinho carece dela, ou com a privação, se seu
vizinho a possui. Só a primeira impressão do bem
trocado pode silenciar a comparação; mas as menores
diferenças neste novo nível excitam nossa
sensibilidade, rapidamente adaptada, com tanta
intensidade como anteriormente o faziam outras mais
grosseiras. E a ilusão nos empurra uma e outras vezes a
prosseguir, como Sísifo,
a tarefa de borrar as diferenças externas até o ponto
onde a natureza põe seus limites e onde reconhecemos
que a dor, da qual queríamos escapar nos persegue desde
dentro.
Não
sei quando os cidadãos de nosso país de contos de fada
compreenderão, se alguma vez chegarem a compreender,
nem com qual freqüência a revolução se repetirá,
sempre por causa do resto de desigualdade que,
certamente, fica. Talvez se saiba dentro de cem anos. No
entanto, com confortante indiferença em relação a
todas essas trocas, as rosas seguirão vivendo sua
auto-suficiente beleza.
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