Julho/2008

Rosas: uma hipótese social

Georg Simmell

 

Este conto de fadas se desenvolve em Utopia ou em Seldwyla ou, talvez, em todas as partes. Ali reinava, pois, uma terrível desigualdade entre os cidadãos. É verdade que cada um tinha sua parcela de terra e que esta lhe proporcionava tanto quanto necessitava, sempre que não necessitasse mais do que proporcionava. Havia aquelas pessoas, no entanto, que podiam se dar ao luxo de cultivar rosas em suas pequenas propriedades. Seja porque possuíam mais dinheiro que os outros ou porque se dedicavam mais tempo ou tivessem precisamente o tipo de solo e o sol adequado, o certo é que em suas terras havia rosas e nas dos outros não. Sem reparar muito nisso, aceitaram isto durante um longo período de tempo sem ressentimentos, como uma ordem natural que divide estas posses com tanta iniqüidade com a beleza e a feiúra e ou o juízo e a insensatez. Mas como os possuidores de rosas começaram a multiplicá-las e a aperfeiçoá-las mediante brotos, gerou-se um surdo ressentimento entre os demais cidadãos. Um agitador, com palavras inflamadas, os persuadiu de que o direito de possuir rosas era inerente a todos e de que era necessário, enfim deter a casualidade cega, que só havia outorgado a alguns poucos; outro gritava à multidão que o tempo de indiferença havia passado e que o grito de guerra na luta pela cultura superior era: “cobiçar!”, “deves ambicionar!”. Um terceiro demonstrava, mediante a lógica e a botânica, que as rosas, por sua tendência à multiplicação, acabariam se acumulando por si só, de maneira tal que seus poucos proprietários, como os hóspedes de Heliogábalo[1], se asfixiariam e todas as suas possessões, sem mais, teriam de recair sobre a massa, assim como este inevitável processo de expropriação quer poderia facilitar e acelerar. Mas de modo algum eram os baixos instintos da inveja, da cobiça ou da avidez por prazer que agitava a multidão. Assim como o aroma das rosas não só agrada o sentido (pobre daquele que nada mais percebe com o nariz!), senão que, como doce excitação, nos atravessa até chegar ao mais delicado e fundo de nosso ser, no grito do povo se uniram os instintos excessivamente humanos com os últimos elos da alma e as reflexões culturais mais profundas. Surgiu um partido revolucionário e, em oposição, outro que era conservador, o dos possuidores de rosas que não só queriam defender sua propriedade como também o encanto delas, que só agora haviam tomado consciência: ter algo que os outros invejam e desejam. Entretanto, estes estavam preparando uma lei que lhes assegurava, mediante o monopólio, a possessão ancestral, herdada e histórica das rosas. Estabeleceu-se um levantamento que terminou com a vitória do partido da igualdade. E de fato terminou assim principalmente porque a idéia moral que inspirava este partido havia se introduzido, de maneira furtiva, no campo do inimigo; acima de todos os interesses opostos ter-se-ia alcançado o ideal da justiça social e sua vitória exterior nada mais selara da anterior, que já havia conseguido.

Assim se alcançou por fim a paz, a igualdade, a felicidade. As rosas floresciam em cada mínima porção de terra que possuísse um cidadão, e a nova distribuição da terra, realizada simultaneamente, proporcionou a cada um as mesmas condições para sua prosperidade. Tudo quanto o ordenamento externo das coisas pode facilitar aos homens foi concedido agora com a mais eqüitativa divisão de seu benefício. Não obstante, as porções não podiam certamente resultar uniformes como nos termos de uma equação matemática. Seja como for, um teria mão melhor para o cultivo das rosas, o outro, um pouco mais de sol, um terceiro, um enxerto mais adequado; pois a natureza se imiscui sempre, ainda que somente na forma de uma pitada e sem nenhum tipo de compromisso, na simetria dos planos humanos. Sem embargo, estas desigualdades se tomavam como algo que teria que se resignar inevitavelmente, da mesma maneira em que pouco tempo atrás se aceitava aquelas grandes diferenças, agora abolidas: sim, ante aquele blefe colossal, esta quantidade negligente não se percebia em absoluto.

No entanto, as coisas tomaram um rumo totalmente diferente, e isto devido a uma singular característica da alma humana tão profundamente enraizada nela e ramificada em sua experiência cotidiana que foi descoberta somente depois de séculos de reflexões sobre nosso espírito. Pois a alma não pode sentir nada que não seja a diferença entre seu movimento e estimulação presentes e os anteriores; estes ressoam nela de maneira enigmática e conformam o segundo plano (ou background) a partir do qual o instante presente obtém e mede seu conteúdo e sua significação. Por isso a vida, qualquer que seja a altura ou a profundidade com que se transcorre, nos parece tão vazia e indiferente quando faltam as diferenças interiores, ao ponto de que tememos que a bem-aventurança ininterrupta do Paraíso seja um tédio igualmente ininterrupto. A perda de centenas de milhões não faz mais infeliz o rico que o pobre um par de táler e, nos primeiros passos do amor, um dissimulado aperto de mãos não preenche menos de felicidade que nos mais altos o alcance final do prazer total. Não é, então, a magnitude absoluta dos estímulos vitais que sentimos nem a altura ou profundidade do nível médio de nossa satisfação ou privação, senão tão somente o contraste entre as diferenças de suas realizações individuais. Por isso, quem é ascendido ou rebaixado de um nível de vida a outro totalmente distinto, depois de um breve período de adaptação, responderá às variações e diferenças dentro do novo nível com exatamente os mesmos sentimentos de alegria e dor com que se respondia às variações e diferenças maiores ou menores do estado anterior. Nossa alma se assemelha a esses delicados mecanismos que reagem a cada mudança ou troca das circunstâncias externas com uma configuração modificada automaticamente, de tal modo que seu rendimento permanece sempre igual. E se nossa relação com os outros seres, nossas diferenças de altura e profundidade se interiorizam como sentimentos, isto se manifesta também naqueles, pois somos seres tão suscetíveis às diferenças e, por sua vez, tão adaptáveis que podemos, de modo definitivo, associar a magnitude modificada do estímulo com a magnitude do sentimento.

Aquilo durou enquanto podia durar; mas um dia terminou a adaptação e aquelas mínimas diferenças no calor e forma, no aroma e o encanto das rosas, com as quais a natureza se manifesta, como última instância, acima de todos os intentos de igualdade, despertaram o mesmo ódio e a mesma inveja, a mesma arrogância de um lado, o mesmo sentimento de despojo do outro. E novamente começaram traiçoeiras teorias a penetrar em nossos espíritos: Para que serve então a propriedade, senão para elevar os homens a um estágio superior de felicidade? Os bens externos não cobram sentidos somente quando despertam sentimentos de satisfação, sem os quais seriam uma casca sem caroço, uma chamada aos ouvidos surdos? Por acaso a indignação contra a situação prévia não provém da dor da desigualdade, da privação, da injustiça? Não se soluciona tudo desordenando exteriormente os bens de um lado para o outro e deixando o interior como antes? Uma mera troca de máscaras! Se disseminou a terrível idéia de que não existe nada mais indiferente que as rosas se a natureza vincula com sua possessão os mesmos sentimentos de desigualdade que com sua privação. Foi justamente o erro histórico do mundo transportar a causa da felicidade ou da dor a possuir ou não possuir objetos. Não, não é se tenho ou não tenho algo o que determina meus sentimentos, senão se outros não possuem ou possuem. Só as almas mais delicadas e puras, que são suficientemente ricas para viver do mais íntimo de si, desejam acolher com gosto o objeto, sem violentar emocionalmente seus limites; a massa, em troca, não se contenta com o encanto da rosa, senão que associa sua emoção com a possessão, porque seu vizinho carece dela, ou com a privação, se seu vizinho a possui. Só a primeira impressão do bem trocado pode silenciar a comparação; mas as menores diferenças neste novo nível excitam nossa sensibilidade, rapidamente adaptada, com tanta intensidade como anteriormente o faziam outras mais grosseiras. E a ilusão nos empurra uma e outras vezes a prosseguir, como Sísifo[2], a tarefa de borrar as diferenças externas até o ponto onde a natureza põe seus limites e onde reconhecemos que a dor, da qual queríamos escapar nos persegue desde dentro.

Não sei quando os cidadãos de nosso país de contos de fada compreenderão, se alguma vez chegarem a compreender, nem com qual freqüência a revolução se repetirá, sempre por causa do resto de desigualdade que, certamente, fica. Talvez se saiba dentro de cem anos. No entanto, com confortante indiferença em relação a todas essas trocas, as rosas seguirão vivendo sua auto-suficiente beleza.



[1] Sestio Vario Avito Bassian (em latim Sextu Varius Avitus Bassianus), mais conhecido como Heliogábalo (203 – 11 de março de 222) foi proclamado imperador no ano de 218 com apenas catorze anos de idade.

[2] Na mitologia grega, Sísifo, filho do rei Éolo, da Tessália, era considerado o mais astuto de todos os mortais.

 

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