|
Uma
vida desperdiçada na vitrine dessa vida, eis a autêntica
idolatria... Sim... Tratamos aqui de um homem dado a
muitas imaginações, um tipo que ansiava mais que tudo
encontrar seu lugar no mundo, todavia perdeu-se,
eternamente de si mesmo. Que desespero foi aquele...
quanto mais o seu eu vazio se enchia do mundo, tanto
menos sua consciência esclarecia e tanto mais se
alienava de si – como já foi dito em outro lugar, o
desespero é a inconsciência que o homem tem do seu
propósito espiritual.
De outra parte, ao indivíduo que encontrou seu propósito
existencial, só convém ocupar a posição que lhe é
concernente, sob pena - caso queira, executar o serviço
do Outro - de enredar-se em confusões que lhe amarguram
a alma e perturbam o espírito; se num sentido, ao
individuo apenas lhe compete exercer o seu único,
especifico, restrito e particular propósito, não se
pode dizer o mesmo quanto ao propósito, aqui não se
aplica a mesma fórmula, já que pode ocorrer de vários
indivíduos terem realizado, apenas num certo sentido, o
mesmo tipo de propósito. Esses indivíduos podem ser de
gerações, períodos ou épocas distintas – são os
contemporâneos espirituais salpicados na linha do
tempo, cujas afinidades e motivações estão, quando em
relação, se atualizando infinitamente, porque se
dirigem á mesma eternidade. O individuo que encontrou o
seu propósito existencial sofre benefícios
significativos frente ao ‘homem do seu tempo’ esse
irremediavelmente estacionado no olvido das eras.
Contudo,
em todo o tempo, a atenção é a exigência dessa questão:
o destino existencial não se oferece, jamais, a espécie!!!
O destino espiritual, jamais, entra em relação com a
espécie!!! O destino espiritual se oferece, em restrita
e absoluta exclusividade, ao individuo: atrai-o e requer
dele, - indivíduo - a mais absoluta exclusividade de
propósitos e coisa espantosa, um não se realiza sem o
outro. Podem ficar meses e até anos, somente,
medindo-se numa beobachten
estéril, numa luta surda onde a vontade férrea
do homem prevalece, escoltada por um desespero tornado
habitual ou... Vai que ocorre de o homem interessar-se,
vai que ocorre de o homem querer, vai que ocorre de o
homem decidir-se, então, num átimo, surge o clarão de
consciência, e por fim... Acontece o instante que
esperava desde uma eternidade por aquela ocasião em que
a criatura responde ao chamamento, escolhe ser um
escolhido para aquela vocação que lhe sorri e o que
era apenas uma possibilidade se concretiza na escolha
que afirma a existência do indivíduo na sua relação
com o Eterno e se confirma, através de sua práxis no
mundo. A escolha que afirma a existência encerra em si,
o risco supremo de ousar ser o indivíduo que
verdadeiramente se é, único, genuíno e inigualável.
A
relação entre o indivíduo e o Eterno é da cor do
risco. Nesse ponto já não há, sequer, a linha, velha
companheira do equilibrista, para servir de vereda que
transpõe os abismos insondáveis da Providencia. Da
prancha eternal, bem alicerçada na solidão, a criatura
se desembaraça de si mesma; naufragante, lança de si
legiões de cargas que pesavam na alma e que se
desprendem em grossas camadas de dor e agonia. Esmiuçada
a alma, eis que o homem apruma-se, concentra-se
indivisamente no alvo celeste e... e, dá O Salto de
encontro ao Absurdo, dimensão completamente inacessível
aos rigores das verificações analítico-objetivas.
Atitude existencial por excelência, O Salto, projeta o
indivíduo para fora dos limites, confortáveis e
seguros, da lógica e da razão, enquistadas no senso
comum. Nos domínios do silêncio, berço das reflexões
decisivas, irrompe no indivíduo a força interior
requerida á realização do ato inaudito de entrega e
disponibilidade na relação com o Eterno.
A
disponibilidade e o desprendimento, em tudo que
compreende a relação com o Eterno, encontra um
suporte: a confiança que a tudo preenche e a tudo
sustenta. É precisamente nessa confiança que se
inscreve a ousadia que mobiliza o indivíduo a lançar-se
na relação com o divino: colocar-se, totalmente, nas mãos
do Hábil Arqueiro. Quem conhecerá o turbilhão de
sensações e impressões que invadem a alma daquele que
se lança na relação com O Eterno? Ser flecha que
acerta o alvo implica, inicialmente, em sair da segurança
da aljava, e estar, apenas flecha nas mãos do arqueiro,
flecha que, ainda não foi lançada... Humildemente
entregue, como uma criança que se deixa rodopiar nas mãos
do pai, a pequena flecha se permite movimentar no
movimento quando aceita o poderio do Hábil Arqueiro.
Cumprindo os tempos, espera na posição, o momento do
lançamento que a conduzirá em direção ao alvo; ao
descobrir a ação que o destino lhe requer se torna
livre para decidir e agir, tendo por certo que, Aquele
que infalivelmente, acerta o alvo é, eternamente,
presente em todo o processo!.. Ele é o principio e o
fim do evento da relação - esse Outro que executa o
lançamento é o Mesmo que vê lá na frente e se faz
alvo para o Eu que aceita a prova a fim de atualizar-se
na presença do Eu Sou Quem Sou.
Na
ação recíproca - o Arqueiro recebe e exerce a ação,
e o evento que do lado da flecha se chama consagração,
do lado do Arqueiro se chama libertação. A flecha não
existe sem o Arqueiro e a existência do Arqueiro só
pode ser abordada e ganhar visibilidade através da
fidelidade e no testemunho daquele que se fez flecha. O
Arqueiro distende o arco, retesa a corda e envia
a pequenina flecha para a carreira proposta; em seu vôo
solitário, ela corta os ventos uivantes e zunindo na
companhia de gemidos inexprimíveis, rasga o véu dos
temporais e os obstáculos invisíveis refletem seu
clamor fazendo ecoar em ondas infinitas, o verbo em ação,
que nasce da fonte mais pura, a fonte da sua própria
existência. Na espantosa trajetória fende Ares e
prossegue em seu caminho sem declinar, vencendo a resistência
das funestas potestades do ar, dos medonhos, e também
dos pavorosos, temporais, e ali mesmo onde jaz o perigo
se levanta o livramento providencial. Sustentada pelo
invisível que não desampara - quem dele consegue se
recordar -, traspassa, por fim, a nesga que se coloca
entre o infinito niilista e a eternidade. Porque é
imensurável, infinitamente, a diferença entre o
infinito e a eternidade cujo desvelamento eterno é
sempre uma manifestação do vivido: porque uma é a
onipotência do arqueiro e outra bem diversa é o temor
e tremor, daquele que se faz flecha arremessada, a serviço
do Arqueiro!
No
indescritível instante, O Extraordinário se apresenta
em todo o seu esplendor, em pleno processo, acontece o
misterioso encontro. Apurando o ânimo, segurando o cálice,
sem desmaiar, o indivíduo tira da fraqueza forças, e o
que era só um lampejo de esperança se deixa desvelar
cada vez com maior intensidade até confirmar-se,
reluzente... a presença a si mesmo. Nesse instante
tremendo, a tristeza não suporta tamanha contradição
e se deixa arrebatar por um lancinante entusiasmo que
sabe re-conhecer os mistérios do Caminho daquele que
quer se encontrar. Sem costas largas, mas luzindo na
aljava do Hábil Guerreiro; como sem proteção, mas
sendo arma eficaz nas mãos do Poderoso Arqueiro; como
esquecida, mas eternamente presente; como desconhecida,
mas conhecendo-se a si mesmo; como farsante e sendo
verdadeira; como imobilizada, mas penetrando para além
das fúrias dos ventos repugnantes; como morta, mas eis
que vivendo intensamente.
Não
obstante, aquele que olha de longe jura ter visto um
caniço açoitado pelos ventos, cuja intensidade das
rajadas o fazem mudar de direção, desordenada e
bruscamente ou uma folha ao léu, maltratada pelos
ventos – figurante do cenário outonal fadada ao
escoadouro das águas. Na sociedade dos espetáculos, a
turba ensandecida continua desejando circus
e a olho desarmado, despreza tudo o que não se
enquadra nos limites da estética logo... quão pavoroso
lhe parece aquele movimento; o comum das gentes repudia
tudo o que não pode ser utilizado para o usufruto da
fantasia cujos critérios devem incluir o encantamento
do Belo, a hipnótica fascinação cujo deslumbramento
explode em êxtases de virtualidades que levam ao Não-Lugar,
ou seja, ao nada logo... quão terrível lhe parece o
rastro da flecha na tormenta. A sociedade do espetáculo
que se ocupa de promover aquela alegria despistada, que
de tão distraída sequer se dá conta de disfarçar o
desespero que a move só atenta para a profundidade das
espumas logo... quão abominável lhe parece a solidão
onde ocorre esse encontro. Sequer desconfia, aquele que
viu de longe, que no outro estágio o indivíduo combate
com as potestades do ar e experimenta o cavalgar furioso
dos ventos contrários e quando se sente dissolver, aí
conheceu o que significa dançar com o vento. Naquele
lugar, onde todo e qualquer movimento implica em risco
– eis aqui a verdadeira arte trágica.
Do
ponto de vista temporal, terrestre qualquer tipo de
preocupação nesse sentido, não passa de uma ninharia,
dando voz ao mundo, não passa de ossos de borboleta a
preocupação ou a ocupação que se dedica a
esquadrinhar o subjetivo, - que é o exercício da
verdade interior do individuo. Querer a toda prova
desentender-se do torvelinho em que consiste sua
interioridade, evadir-se da revolução em si mesmo,
fugir por cinco caminhos para desembocar na fronteira do
império dos sentidos que separa o homem distraído do
seu “eu interior” e o arrasta ao infinito é a
resposta manifesta que o espírito do mundo espera do
homem: sentir, utilizar, manipular, experimentar. É
esse o espírito do mundo cuja maior delícia consiste
em mergulhar no mar das multiplicidades, generalidades
objetivas e ou virtuais – abominando ferozmente
qualquer vestígio de individualidade. A distração,
velha camarada, sempre
inclinada para o objeto, coloca o sujeito diante de uma
legião de outros “eus” possíveis e passíveis de
serem consumidos e ou cinicamente copiados e
reproduzidos... Menos um, justamente, aquele que não se
vê: o único, genuíno e singular, qual seja, o eu
interior, pura paixão, nascido - em dores - de si
mesmo, na relação íntima e face a Face.
Em
oposição a consciência que se expande, fruto da relação
e do conhecimento dessa relação, surge a desatenção,
artimanha da memória que clama por esquecer--se de si,
para desatualizada, tornar-se um arquivo caleidoscópico
e impessoal, assassinando as recordações decisivamente
significativas, desperdiçando o instante imortal e
fugaz cuja vivência o levaria a conquista da
eternidade. Numa disposição interna para o
embotamento, a criatura elege encher-se de mundo, ser
estrangeiro de si próprio e nesse mote, vai coxeando
com as aparências e chutando com o calcanhar o eu
escorraçado, que sempre emerge sinalizando para o
instante de eternidade, que pode ocorrer a partir do
decisivo instante da escolha. Daí, precisamente, o
desespero que o agita por dentro e nunca o abandona,
enquanto ele deseja, sempre, os objetos que se perfilam
diante dele. Abrasado pelas possibilidades ilimitadas
vai desesperando a cada momento - o seu “agora” não
passa de experiências pretéritas, que se repetem
infinitamente. Em não encontrando, jamais, seu propósito
existencial, prossegue com um conhecimento muito, muitíssimo,
brumoso de si mesmo.
Nessa
luta renhida contra o adversário que é mais forte que
ele mesmo, ou seja, sua própria vontade em recusar
querer ser seu verdadeiro eu, acaba por sucumbir, na
tentativa infrutífera de querer separar o seu eu do seu
Autor assim ele é todo desespero e até sua alegria se
compõe de um forro de dores... A comunicação entre o
indivíduo e o Eterno se estabelece na presença de uma
entrega recíproca e de um amor absolutamente
incondicional. Na eterna presença...
Completar a curva da existência até atingir o
alvo, cujo centro chama-se: Eu Sou, eis a urgência em
que todos, mas, exclusivamente, cada um, em particular,
deve aplicar seus interesses. O lugar do Eterno é
indispensável para a realização existencial do indivíduo,
é na relação que o indivíduo se reveste da sua
identidade indestrutível, por ser imortalmente eterna!
Precisamente nesse ponto ocorre o encontro com o Eu Sou.
Longe de todas as acomodações e conformações
pequeno-burguesas, que corrompem a relação com Deus
rebaixando-a, a um relacionamento de meros exercícios
comerciais visando, apenas, o sucesso, os lucros
imediatos e as barganhas inomináveis obscurecendo desse
modo, a luz que o faria vislumbrar o caminho. Essa
trajetória não permite movimentos negligentes por
tratar-se aqui de uma experiência singularmente
arriscada, particularmente individual e vivida em temor
e tremor.
Nesse contexto beobachten – observar, será melhor
entendido em oposição a zublicken – contemplar,
esse último aludindo a uma vivência intensa e
profunda que se dá na presença; ao passo que o
primeiro, guarda uma reserva, uma distância, do
objeto observado.
Renê Pereira Melo Vasconcellos é psicóloga, doutora em Ciências Políticas e Sociologia pela Universidad Pontificia de Salamanca, na Espanha.
|