| Há uns cem anos ocorreram pavorosas inundações na região de Verona, na Itália, provocadas por grandes nevascas nos Alpes, logo seguidas por um rápido degelo. Os rios desciam impetuosos dos montes, saíam dos leitos e arrastavam tudo o que encontravam no caminho, causando grandes devastações e estragos. Entre outras desgraças então verificadas, uma ponte do rio Adige foi arrebatada pelas águas furiosas, mas não de todo, restando, no meio da corrente, o pilar central, sobre o qual assentava a casa do guarda encarregado de cobrar os direitos de pedágio, que dessa maneira se encontrou com a sua família em uma espécie de ilha de fragilidade extrema, e que de um momento para outro seria fatalmente arrastada pela torrente.
Debruçavam-se eles, agitando desesperadamente os braços e gritando por socorro à gente, que, da margem, os olhava. Ainda que muitos desejassem socorrê-los, ninguém se atrevia a arrostar o perigo daquelas águas.
O conde de Pulverim, fidalgo importante da região, chegou à beira da enchente e ofereceu
cinqüenta libras a quem salvasse aquela pobre família; mas não havia quem tivesse coragem de tentar tão arriscada empresa.
Naquele momento, um camponês de outra região que chegava ali de passagem, aproximou-se do rio; vendo o extremo perigo em que se encontravam o guarda e a família, saltou para um bote e remou vigorosamente, dirigindo-se à pobre casinha isolada, batida pelas águas tumultuosas da cheia. Como a corrente era fortíssima aquele bravo precisou empregar esforços verdadeiramente sobre-humanos para lutar contra ela.
Ninguém acreditava que ele pudesse levar a cabo a sua nobre a dificílima tarefa. Mas, depois de muito tempo de tenaz e perigosa luta, chegou ao desconjuntado pilar da ponte que sustinha a habitação.
- Coragem, amigos! - gritou ele para animar a família aterrorizada; por fim, conseguiu recolhê-los todos no bote.
Faltava agora a viagem de volta, bem mais perigosa e difícil que a da ida, porque o barco vinha carregado; mas a força e a habilidade do camponês era grandes, e maiores ainda a sua resolução, energia e bravura. Quando finalmente desembarcou aquela pobre gente, sã e salva, a multidão irrompeu em aplausos e o conde aproximou-se, a fim de lhe entregar o prêmio prometido. Mas o camponês, cujo nome não chegou até nós, embora a sua bravura e abnegação vivam sempre nos anais das belas ações, recusou as
cinqüenta libras, dizendo simplesmente:
- Não foi por causa do dinheiro que arrisquei a minha vida. Posso trabalhar, graças a Deus, para prover as minhas necessidades e as de minha mulher e de meus filhos. Dê esse dinheiro ao guarda e à sua família, que perderam tudo quanto possuíam.
E assim aquele homem corajoso não só salvou uma família com lhe proporcionou meios suficientes para organizar um novo lar.
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