Dezembro/2005

Camponesa e Imperatriz

 

 

Há no palácio do Vaticano, em Roma, sob a sua imensa cúpula, dois magníficos túmulos. Um deles guarda os restos mortais da filha de Constantino, e o outro, o corpo de Santa Helena, mãe daquele imperador.

Nasceu Helena de gente muito humilde. Seu pai era dono de uma modesta hospedaria; além de tratar das vacas e das cabras, ajudava-o nos cuidados e trabalhos do estabelecimento. O lugar do seu nascimento foi durante muitos séculos objeto de discussão entre os eruditos, pois uns julgavam ser a Inglaterra, e outros, uma povoação da Betânia, na Ásia Menor. Foi aí, jovem e bela, que atraiu as atenções de um alto oficial do Império Romano, chamado Constâncio Cloro, que, sem se importar com a diferença social que os separava, casou com a camponesa.

O nobilíssimo cavaleiro e a sua esposa de origem plebéia viveram muito felizes e, no ano de 274, deu ela à luz uma criança que veio a ser, amis tarde o famoso, conhecido na história com o nome de Constantino o Grande. Até então, Constâncio Cloro, apesar de ser um dos nobres mais distintos do império, não fora ainda senão governador. Mas, no ano de 292, as coisas mudaram, trazendo a Helena o primeiro e profundo desgosto de sua vida. O grande Império Romano dividiu-se em quatro partes e Constâncio Cloro foi eleito monarca de uma delas, compreendendo as Gálias, a Espanha e a Bretanha. Era necessário escolher entre a esposa e a coroa; e o imperador Diocleciano, que lhe oferecia esta, dava-lhe também a mão de sua filha Teodora.

As leis do império eram nesse ponto terminantes. Os imperadores romanos tinham de casar com mulheres de alta hierarquia. Constâncio, para obter a dignidade mais alta do império, divorciou-se de Helena e casou com Teodora.

Seu filho Constantino contava então vinte anos. Sua dor não teve limites ao considerar o desprezo com que fora tratada a sua querida mãe; e tal foi sua indignação que nem quis acompanhar o pai na cerimônia que o revestia da nova e alta situação; ficou junto de Helena, de quem só se separou quando, mais tarde, partiu a fim de guerrear como simples soldado. Tão grande era, porém, o seu valor que, mesmo sem auxílio nem proteção do pai, e unicamente pelas suas ações e merecimentos, em breve se tornou um dos mais famosos capitães do século. Constâncio, entretanto, não podendo suportar por mais tempo a separação de seu filho, escreveu-lhe suplicando que viesse para junto dele. Constantino, que se encontrava longe, obedeceu, empreendendo uma viagem cheia dos perigos mais terríveis até Bolonha, onde se juntou ao pai. Dirigiram-se então os dois à Inglaterra e, quando Constâncio morreu em York no ano de 306, os soldados de Constantino proclamaram-no imperador de Roma.

Um dos primeiros atos do no monarca foi elevar sua mãe a uma dignidade igual à sua. Fê-la imperatriz; e a antiga camponesa, colocada em tão alta situação, soube conquistar o respeito e o amor de todos os súditos. Santa Helena, como hoje é conhecida, havia sido até então pagã. Em Roma, a perseguição dos cristãos continuava, porém, no ano de 313, Helena converteu-se ao cristianismo, dedicando-se, devota e pacientemente, à conversão de seu filho, o imperador. Um acontecimento milagroso colaborou decisivamente com as orações e esforços de Helena.

Antes de conseguir estabelecer a ordem e a paz no Império Romano, foram muitas as batalhas que Constantino teve que sustentar. Durante uma delas, o imperador viu no céu uma cruz de fogo na qual havia estas palavras: In hoc signo vinces (com este sinal vencerás). E considerando tal visão como um aviso de Deus, abraçou a religião cristã. Desde então, o Império Romano, do qual Constantino era senhor absoluto, adotou o cristianismo como religião única e verdadeira; e as legiões romanas passaram a ostentar, nos seus estandartes, a cruz do Redentor.

Helena abandonou o retiro em que vivera até então e dedicou-se à prática dos mais belos atos de piedade cristã. Era quase octogenária quando empreendeu uma peregrinação à Terra Santa e graças às escavações realizadas por sua iniciativa descobriu-se o Santo Sepulcro e a Cruz, que mandou dividir em duas partes, deixando uma ao bispo de Jerusalém e enviando outra a Constantino. Helena permaneceu na Palestina durante algum tempo e edificou igrejas em Belém e no Monte das Oliveiras.

Regressou enfim de suas grandes viagens e morreu nos braços do filho, em 327, contando mais de oitenta anos. Ordenou Constantino que o cadáver de sua mãe fosse levado solenemente para Roma e enterrado com o maior esplendor.

 

 

 
 
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