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| Janeiro/2007 Como
uma tarde em dezembro
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| Almir
Guilhermino
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Antes que os 12 repiques do sino da matriz lhe dissessem meio-dia, recolheu os pratos da mesa e a mãe paralítica ao quarto. Retocou o baton, sem ver no espelho, pegou a tira-colo e a sombrinha ganhando a porta da rua, num salto.
A rua fervilhava de gente e das janelas dos sobrados pareceria, no mínimo, sinistro ver aquela sombrinha azul turquesa em emio a refugos de feira, carroças, garajaus sobre dorsos suados e gente, muita gente cruzando, apressada.
Mas quem não conhecia Deolinda pelo menos em onipresença passando naquela hora de sempre de todos os sábados, aérea e em câmera lenta banhada do azul da sombrinha no seu costume composto e rendado?
Como, também, ninguém duvidava que logo mais estaria (como estava) chegando aos correios enquanto, simultaneamente, tirava um envelope surrado da bolsa dirigindo-se, mecanicamente, ao caixa.
Tudo corria em silêncio, se não fosse 31 de dezembro, razão que lhe fez receber da atendente um sorriso, um calendário e um desejo de ‘feliz ano novo’, que mal escutara porque se lançava à rua com o propósito de não ouvir o resto.
Livre do pátio da feira, Deolinda alcançou uma rua menor de casas singelas em meia-água.
O que houve com o tempo? Estava perdendo as referências das coisas, fora praga ouvida a pouco nos correios ou as coisas mudaram, de fato?
O mormaço a fez sacudir, fatigadamente, a roupa e encolher-se mais à sobrinha escondendo a verdadeira face da rua (cheia de luminosos, lojinhas e miudezas que iam dando lugar a antigas residências) para, assim, retomar forças e seguir em seus passos, milimetricamente reconhecidos por cada metro daquela calçada. ‘Nada mudara’ convenceu-se ser apenas cores novas (mania que se tem em tempos de ‘festas’ pintarem a fachada das casas). Deu dois muxoxos desprezando as vizinhas que tiravam respingos de tinta de suas calçada e janelas, dando os últimos retoques para a noite.
Abriu logo a porta e entrou antes que uma delas viesse, sorrindo, lhe dar ‘boa tarde’. Maquinalmente, agachou-se para pegar a correspondência ao pé da escada. Ergueu o envelope surrado lendo o seu remetente. E, no mesmo frisson, abriu-o como quem não conhecesse as palavras.
Os olhos já sabiam o momento que deveriam cair a mesma quantia de lágrimas. O lenço, talvez, fizesse o caminho sozinho, se ela assim o permitisse, em volta da face.
E, como quem obedece a comandos, levantou-se e seguiu para o quarto. Ali, abriu uma gaveta da cômoda e guardou a carte entre uma montanha de outras de mesmo tom de papel e idêntica caligrafia de remetente e destinatário.
O que vem adiante, as paredes, as cortinas, os bisquis, a mobília conhecia todos os passos. O balde, a vassoura, o paninho e a tarde inteira de esfrega-e-espreme, de lustra-e-alisa, de espana-e-sopra sem, contudo, nada mudar de lugar, nem um centímetro atrás, nem um centímetro à frente.
Na hora de passar o óleo de peroba nas mesas de canto da sala, percebeu (mas logo, obsessivamente, retirou) um ponto de ferrugem numa das molduras do centro. Logo naquela onde via-se bem nova e mais jovem. Naquele único e último retrato dos dois numa tarde de dezembro diante do bolo de noivado (congelados num sorriso franco e feliz).
Por um instante o tempo escapou do extraquadro dando movimento à foto. Veio-lhe recordações daquela tarde cheia de vivas e risos e beijos. Quis perder a esperança, mas o sino da matriz anuinciava 6 horas. Benzeu-se. Lembrou-se da mãe paralítica, da louça e a pia coalhada de graxa. Largou, então, a moldura voltando à realidade (a sua realidade).
Daí, dirigiu-se ao quarto, trocou as fronhas (com as iniciais que conhecia de cor), o lençol de vira, a colcha de cambraia num branco encardido. Deixou, no guarda-roupa, o calendário entre tantos outros que havia ganho de brinde em dezembros passados.
Saído o cheiro de mofo, fechou as janelas a tempo da noite não entrar com suas luzes de neons e back-lights vindas da rua. O que houve com o tempo? Ali não há mais residências, virou tudo loja, armarinho? Sei lá...
Passou a chave na porta. Não havia sinal de sol mais nenhum. Contudo, abriu a sombrinha para evitar as vizinhas de bobies, as crianças de roupa-de-ano, o cheiro de peru assado e Roberto, cantando ‘Detalhes’ numa vitrola Deus sabe lá de onde.
Fogos vindos da matriz de novo lembrou-lhe dezembro, a voz da mocinha lá do correio, a última tarde.
Que última! Semana que vem já é Sábado e, de novo, o sino, o almoço da velha, mais cedo, o envelope, o correio, a faxina. Quis voltar-se para ver, lá de longe, sua casa de noivos, mas a rua estava tomada de festa. Dobrou a esquina sem olhar de soslaio, encheu-se de esperança e mais nada.
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