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Recentes pesquisas realizadas nos EUA revelam uma baixa surpreendente na
auto-confiança dos norte-americanos; os resultados apontam para uma constatação
nacional que a "prosperidade" sempre crescente é coisa do passado. Por outro
lado, os comentadores perguntam estupefatos: Como pode o povo americano ser tão pouco
grato à sua boa fortuna? De fato, falamos de uma nação rica! Este é o país onde
há o maior desperdício de alimentos no mundo, são toneladas de comida jogadas no lixo
diariamente, montante suficiente para aplacar a fome dos bolsões de miséria de toda a
América Latina. Sem falar no alto padrão de vida pessoal, das casas confortáveis, dos
carrões que tanto impressionam os "pobres latinos", suscitando comparações
com as "nossas carroças". Enfim, um país próspero, que trás a tona a
perplexidade dos pobres: afinal porque, o very nice dos americanos sofreu um abalo
tão drástico?
Podemos entender um pouco esta questão trilhando a trajetória que orientou o
comportamento e escolhas do povo americano, respaldadas em motivações econômicas
fortíssimas, e em cujas bases neoliberais se construiu o mundo social daquele país:
exemplo seguido pela banda capitalista do mundo. A filosofia neoliberal prega a chamada
"religião econômica", da obtenção do sucesso econômico-financeiro a
qualquer custo, com um fim determinado que conduziria a "terra prometida" da
cultura de consumo.
E o homem americano obediente ao Grande deus-mercado se lançou na aventura do êxito
pessoal, lutando para alcançar o sucesso numa sociedade capitalista selvagem, cega pela Cultura
da Insensibilidade com traços de caráter marcadamente individualista, privilegiando
o TER em detrimento do SER.
Trabalhando e vivendo em função do trabalho, empurrado pela crença do sucesso
fundado na carreira e na profissão, o homem americano em sua busca de posição social e
de um lugar confortável na cultura de consumo, cultivou um caráter baseado nas leis do
mercado: EGO- ísta individualista e pasmem... Infeliz! Depois de galgar altas posições
sociais e se confrontar com as regras da nova ordem mundial, este homem inicia um doloroso
processo de questionamento quanto a validade da idéia do êxito, em meio a ansiedades e
crise de identidade provocando com isto novos dilemas, mas sobretudo se recriando para
novas possibilidades de vida genuína.
O caminho de Damasco que o americano médio está percorrendo, demonstra que a
idolatria do mercado com suas mistificações fundamentadas na idéia de que a Identidade
das pessoas é definida por sua ocupação, cargo ou a posição que ocupa no sistema,
começa a cair por terra, pelo menos nos países desenvolvidos. Toda esta discussão serve
de alerta ao povo brasileiro massacrado e iludido pelo redemoinho neoliberal que prega
resultados, sucesso individual, enfim, a glória sob a égide do império horripilante da
lógica da exclusão e da insensibilidade de muitos em relação a ela, já que para que
haja privilegiados é necessário que existam as vítimas que são imoladas em
sacríficio, que o deus-mercado, nestes tempos de globalização exige aos milhões.
Estas pesquisas1 , também realizadas na Inglaterra , nos revela pessoas que
conseguiram tudo o que se dispuseram materialmente e surpreendentemente se encontraram no
deserto ao invés da tão propalada "terra prometida" oferecida pelo
deus-mercado; e o que é pior, na busca alucinante da glória se depararam com o demônio
da auto-destruição. Que no dizer de Horney: "como qualquer outro impulso destrutivo
a busca da glória, tem a qualidade da insaciabilidade. Ela deve operar enquanto as
forças desconhecidas (para a própria pessoa) a estão impelindo.(...) A busca da glória
pode ser como uma obsessão demoníaca, quase como um monstro, engolindo o indivíduo que
a criou."
Por suposto, o mundo tem fome, e na medida em que supra suas necessidades inclusive na
dimensão espiritual poderá re-direcionar sua trajetória no sentido de uma vida plena, de
vida vivida em abundância, onde prevaleça o equilíbrio entre o trabalho, a família
e outros elementos essenciais para uma vida genuinamente feliz com uma abertura
solidária para o Outro: o excluído social, o sem-teto, o sem-terra, o sem-tudo, o
sem-nada!!
1
Ray Pahl, Depois do Sucesso - Ansiedade e
Identidade. São Paulo, Unesp, 1997.
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