Dezembro/2004

A TEC TEM práxis perturbada

Wladimir Micheletti

 

Introdução

                Primeiramente, definamos as abreviações para compreendermos o trocadilho: Teoria Econômica Convencional (TEC) e Teoria Econômica Marxista (TEM). A primeira é dominante e exuberante academicamente; a segunda é incompreendida propositalmente quando não é ojerizada abertamente, mas se estudada a contento, explica como e porque a primeira contribui para a (e se mantém através da) práxis perturbada. A definição de práxis estará subentendida no texto.

                Os nomes próprios serão mantidos, ainda que somente os nomes, para – seja na justiça ou em qualquer outro lugar (de preferência na academia) – que estas mesmas pessoas deixem de se auto-estranhar, isto é, para que o nome não seja  usado em “vão”.

                É quase desnecessário dizer que o objetivo deste texto é esclarecer a práxis perturbada e, ao mesmo tempo, explicitar alguns aspectos de ambas as Teorias Econômicas e a potencialidade (principalmente na micro-análise explicativa) daquela que é, ou vem sendo, extirpada dos cursos em geral.

Análise de dois casos

Primeiro caso.     Numa reunião plenária de um departamento de economia, as pessoas conversam sobre amenidades, mas aquilo que predomina é quanto cada qual está ganhando em tal e qual cargo e como alguém contribuiu para tanto. Enfim, a maioria decide referendar a decisão do Dr. Agnaldo e da Drª. Cecília sobre algo que se arrastava por meses e que, inclusive, acarretou um processo rogando a atenção do reitor, mas cujo resultado foi desprezado e, desse modo, voltou à estaca zero que é não permitir a introdução da disciplina TEM no curso em formação. O referendo foi posto em ata como “a maioria referenda a decisão” de ambos, com ordem expressa do Dr. Cícero, de não anteceder com as palavras “sem debate, sem discussão”. Certamente, como tentativa de intimidar o proponente da introdução da disciplina, o chefe Dr. Francisco fez um lastimoso discurso quase exigindo que o proponente não mais usasse o termo “rogar” em vão, pois não se deve “rogar” a  atenção das entidades ligadas à área desta ciência para o fato, e sim “pedir” à Deus e às autoridades burocráticas que aconselhem o proponente. O Dr. Agnaldo “pede” para constar em ata que o proponente não utilize o nome das pessoas em “vão”. O proponente entende esta súplica como desejo de se auto-conhecer, ou seja, um “pedido” de auto-ajuda - não expor a forma (nome), se não expuser também o conteúdo (alma), pois assim se toma conhecimento de ambas as dimensões da pessoa.

Segundo caso    Alguns colegas são chamados para uma reunião na entidade de classe para discutir os rumos deste sindicato. De súbito, nos informam que a inscrição de chapas para eleger uma que regerá a entidade nos próximos anos se encerra no dia seguinte. Dado o curto espaço de tempo, propõe-se que seja formada uma chapa “relâmpago” para bater de frente com qualquer chapa oportunista que queira se inscrever no dia seguinte. A proposta não é “compreendida” por algumas das pessoas e a chapa não é composta. No dia seguinte o proponente constata que as pessoas que não “compreenderam” a proposta estavam aproveitando a oportunidade para inscrever uma chapa ainda por formar (deformada). O proponente pede que a chapa não seja inscrita e, desse modo, se obteria tempo para uma discussão mais ampla e envolvendo politicamente mais pessoas. A colega afirma: “o mundo é dos espertos e não tenho culpa se vocês são desarticulados”. O proponente reclama com o presidente da entidade que responde: “fizeram vocês de tontos”.

 No primeiro caso fica explícita a “preferência revelada” e institucionalizada pela irracionalidade. Pois a introdução da TEM constituiria o espaço que a rosa-dos-ventos da TEC precisa para deixar de se emaranhar e evoluir à TEM.  No segundo, o “oportunismo” (interesse próprio com trapaça) que sempre se articula desarticulando e, desse modo, ao invés de avançar, regride, atrofia a alma, ainda que se locupletando.

Explicação científica dos casos

                A contrariedade, mais especificamente a contradição, rege esse “mundo das mercadorias” onde um simples aperto de mãos tende a ser substituído por mercadorias (a tele-mensagem, por exemplo).

                Para expressar, matematicamente, esta relação de contradição entre pólos contrários, utilizemos da função das proporcionalidades inversas ou opostas, y=f(1/x). esta função não tem limite no espaço da lógica formal ( que se atém somente à forma e não considera o conteúdo). Em outras palavras, a contrariedade parece não tem fim, é infinita. No entanto, o limite desta função existe, mas é o limite desta lógica para com aquela que a circunda, isto é, a lógica dialética e se dá na unidade (1,1): 1/x = 1; 1=1.1; 1=1. A não existência do limite na lógica formal implica na impossibilidade de nulificação do (exceto exterminando o) pólo oposto. O idioma espanhol talvez seja o único que traz uma ótima representação, portanto otimizada, deste fato com o pronome “nosotros” (nós outros) por não apresentar o fato de modo separado, disjunto, mas em conjunto. Por outro lado, a lógica dialética também não pode prescindir da lógica formal, pois só em conjunto pode explicar o conteúdo da forma ou a aparência da essência.

                Algo semelhante acontece com a TEC e a TEM, pois a primeira está contida na segunda e todas as indicações da rosa-dos-ventos desta indicam a TEM e, desse modo, o mainstream tem que dissimular e/ou utilizar da prestidigitação para manter a TEC dominante academicamente, causando “deformações”. Portanto, não formando profissionais adequadamente, mas unilaterais, que somente consideram o preço das “coisas” e desprezam propositalmente o valor que o determina – a Lei do Valor. Enfim, profissionais que se atém, obstinadamente, à improvável “lei” do mercado – a conhecida “mão invisível”.

                Ainda sobre o limite como sendo a unidade de contrários ou bissetriz, é preciso acrescentar dois fatos que  a TEC (utilizando somente da lógica formal) tenta agregá-los (trazer para junto) através de modelos econométricos estocásticos e que, evidentemente, não obtém sucesso. São estes os fatos: Lênin fala em “salto vital”[1] para exemplificar a passagem do pólo dominante para unidade ou síntese e muitos outros teóricos clássicos falam em “salto gnosiológico”; por outro lado, parece ter sido Spinoza aquele que primeiro salientou o aspecto oposto deste “salto gnosiológico”, isto é, que o “resíduo” do pólo dominado, aquela “porciúncula” ou “resto” que as pessoas vêem como insignificante (a Estatística, como “erro”), é, na verdade, aquilo que potencializa a síntese ou superação positiva das contradições em geral: “anomalia selvagem”- Spinoza; “anomia” – Comte; “resíduo” – Pareto / Durkheim (este último intentou o “método dos resíduos”); “mínimos detalhes” (Trotsky); “espírito animal”- Keynes; “lêndea-valente” – Weibull/Binmore; “pequeno canto do mundo”, “...o novo fundamento econômico para uma forma mais elevada de família e de relações entre ambos os sexos” (Marx, 1983, tomo I, 90-91).[2] Enfim, aquela família harmoniosa que, em meio a mais ampla e profunda devastação das famílias em geral, se desponta como família referencial por estabelecer a troca de equivalentes (valor) em ambos os mundos – material e imaterial – e, desse modo, refazendo ou corrigindo a “troca desigual” em que o preço acoberta tanto as transferências como as absorções de riqueza em geral. Mais, esta família referencial, é a “aliada mais audaz” que o proletariado pode ter, pois é o germe da Revolução Social, atualiza as relações ao estabelecer a reciprocidade com base no valor e põe, definitivamente, a moral.

                Vejamos como a “contrariedade” ou um dos pólos tenta se desenvolver (des-envolver) de seu oposto e, desse modo, caracterizemos o “mundos das mercadorias” ou da “coisas” onde nosso “conteúdo” (ou caráter, alma) segue a mesma dinâmica, exceto no que diz respeito à transubstanciação. Isto é, no mundo das coisas o dinheiro viabiliza a apropriação do conteúdo via forma, ou seja, através do preço y se apropria do valor x, mas no “mundo das representações” ocorre a “atualização” ou “regressão” da alma, do caráter das pessoas. 

Quaisquer das categorias marxistas podem ser expressas através deste instrumental matemático que muitos pensam que é propriedade exclusiva da lógica formal (ou da TEC). Por exemplo, o valor é a síntese (bissetriz) da relação contraditória entre valor de uso (tese) e valor de troca (antítese); o capital é a síntese da relação entre a parte referente às máquinas, matéria-prima, etc,Cc, e a parte referente à força de trabalho, Cv, ou partes que compõem o capital, cuja fórmula é: D-M (MP e FT- produção)-M-D’; através da compra / venda de mercadorias (M) Ou seja, o capital é dinheiro (valor) que se auto-valoriza (D’). Num gráfico, a reta do preço corta a bissetriz, isto é, o preço oscila em torno do valor e nos permite visualizar a transferência e absorção de riqueza conforme a composição do capital - reta com pendente negativa e tendendo a se sobrepor o eixo-y – e, ao mesmo tempo, gerando uma superpopulação relativa (“excluídos”). Nos países desenvolvidos (composição orgânica alta), o Estado do bem-estar social até que dá conta da população que cresce negativamente; nos países subdesenvolvidos, além da super-exploração do trabalho (salário ou preço bem abaixo do valor), o Estado “periférico” mal consegue dar conta do segmento formal (carteira assinada) da população economicamente ativa que ,por sua vez, é excessiva.

Entrevendo a alma

Numa situação dessas, a TEC nada mais pode fazer que apregoar a “livre-iniciativa” e que nada nem ninguém interfira nos preços, os quais devem ser deixados à égide do mercado (ainda que tendo que instituir as “agências reguladoras”).

A TEM, por outro lado, viabiliza a “auto-administração via valor” ou “self-government” [auto-governo] que é a verdadeira e eficaz “agência reguladora” aludida por Marx em várias de suas obras. Isto no plano da materialidade. Na subjetividade temos o “poder constituinte” que é a “família referencial” e, há muito, constatada por Elizabeth Bott em seu – Família e rede social[3] – mostrando que “o grau de segregação dos papéis conjugais está relacionado com o grau de conexão na rede total da família [mercado]. Aquelas famílias que t[em] um alto grau de segregação no relacionamento de papel do marido e da esposa t[em] uma rede de malha estreita;... O grau de segregação no relacionamento de papel entre marido e esposa varia diretamente com a conexidade da rede social da família. Quanto mais conexa à rede, maior o grau de segregação entre os papéis do marido e da esposa”.  A conexão à rede através de “malha frouxa” - caso das poucas famílias congregadas - impede a interferência brutal das relações mercadizadas e, ao mesmo, possibilita a formação da resistência à lógica do capital. É desnecessário recorrer às estatísticas para constatarmos que a conexidade das famílias com o mercado cada vez aumenta mais, por isso cada vez aumenta mais o número de separações, divórcios, enfim, aumenta vertiginosamente o número de homens que se gabam por registrar o seu “pomposo” nome no da bela mulher que acabam perdendo (não o nome, mas a mulher), inclusive, para outra mulher. Isto por tentar impor uma relação de não-equivalentes (“mercadizada” e com trapaça; sempre querendo levar vantagens sobre o outro), mas quando o(a) outro(a) percebe a “troca desigual”, parte logo para outra relação, ainda que negando, parcialmente, a “lei” de Deus (“porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores” I Tim. 6:10), mas afirmando a “Lei do Valor” (ainda que inconscientemente), isto é, buscando um acordo, a troca de equivalentes na subjetividade e que erige a ética – tão em falta no caráter de muitos homens (e mulheres, evidentemente). O espaço deixado pela falta desta substância é ocupado pelas perturbações ou transtornos psicológicos que determinam a práxis perturbada[4] - os “profetas da regressão”. 

Sendo assim, os nomes dos caro(a)s colegas oportunistas e impostores referendários, não foram usados em “vão”, pois apresentamos suas substâncias. Advertimos: não é através do transtorno obsessivo compulsivo que estas atingirão o estado são. Caso queiram fazer ciência e/ou política, isto é, práxis, não mais se estranhem, “saltem” para a vida e nos juntemos todos para a obtenção de vantagens sociais - sem medo de ser feliz. Pois esta é a nossa práxis.

O termo práxis perturbada aqui utilizado, foi emprestado de José Revueltas (Dialéctica de la conciencia. 1ª ed., México: Ediciones Era, 1986). 

 

 Wladimir D. Micheletti é professor do Departamento de Economia da UFAL

 

[1] “...no raciocínio citado por Engels aplica claramente o método do “salto vital”, em filosofia, isto é, dá um salto da teoria [antítese] para a prática [tese]. Nem um só dos outros (e estúpidos) professores de filosofia seguidos pelos nossos machistas [ Ernest Mach, o mais popular representante do empiriocriticistas] se permite alguma vez semelhantes saltos. Para eles uma coisa é a teoria do conhecimento, em que é preciso cozinhar com a maior sutileza verbal as “definições”, e outra coisa completamente diferente é a prática. Em Engels, toda a prática humana viva irrompe na própria teoria do conhecimento, fornecendo um critério objetivo da verdade: enquanto não conhecemos uma lei da natureza, ela, existindo e atuando sempre à margem [resíduo], fora de nosso conhecimento, faz de nós escravos da “necessidade cega”. Depois de tomarmos conhecimento desta lei, que atua (como Marx repetiu milhares de vezes) independentemente da nossa vontade e da nossa consciência, tornamo-nos senhores da natureza. O domínio sobre a natureza, que se manifesta na prática da humanidade, é o resultado de um reflexo objetivamente fiel no espírito do homem dos fenômenos e dos processos da natureza, é a prova de que este reflexo (nos limites daquilo que a prática nos mostra) é uma verdade objetiva, absoluta, eterna” (LENIN, V.I. Materialismo e empiriocriticismo. 1ª ed., Moscou: Edições Avante, 1982. 1982, p.144).

2] MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Coleção Os Economistas, Abril Cultural, 1983

[3] BOTT, Elizabeth. Família e rede social. 1ª ed., Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976, p. 77.

[4] “...não há grande diferença entre o mistério da Santíssima Trindade e a teoria da mais-valia de Marx,... Mas aqui chegamos às fronteiras do provável. Cuidemo-nos para não ultrapassá-las, evitando o perigo de ir mais além dos terrenos do possível e de vagabundear pelos espaços desmedidos da imaginação”. Pareto teme a Deus por não se sentir feito a sua semelhança, certamente porque se locupletou. PARETO, Vilfredo. La transformacion de la democracia. 1ª ed., Madrid: Edersa, 1985, p. 63-64).

 

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