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Introdução
Primeiramente, definamos as abreviações para
compreendermos o trocadilho: Teoria Econômica Convencional (TEC)
e Teoria Econômica Marxista (TEM). A primeira é dominante e
exuberante academicamente; a segunda é incompreendida
propositalmente quando não é ojerizada abertamente, mas se
estudada a contento, explica como e porque a primeira contribui
para a (e se mantém através da) práxis perturbada. A
definição de práxis estará subentendida no texto.
Os nomes próprios serão mantidos, ainda que somente os
nomes, para – seja na justiça ou em qualquer outro lugar (de
preferência na academia) – que estas mesmas pessoas deixem de
se auto-estranhar, isto é, para que o nome não seja
usado em “vão”.
É quase desnecessário dizer que o objetivo deste texto
é esclarecer a práxis perturbada e, ao mesmo tempo,
explicitar alguns aspectos de ambas as Teorias Econômicas e a
potencialidade (principalmente na micro-análise explicativa)
daquela que é, ou vem sendo, extirpada dos cursos em geral.
Análise
de dois casos
Primeiro
caso.
Numa reunião plenária de um departamento de economia,
as pessoas conversam sobre amenidades, mas aquilo que predomina
é quanto cada qual está ganhando em tal e qual cargo e como
alguém contribuiu para tanto. Enfim, a maioria decide
referendar a decisão do Dr. Agnaldo e da Drª. Cecília sobre
algo que se arrastava por meses e que, inclusive, acarretou um
processo rogando a atenção do reitor, mas cujo resultado foi
desprezado e, desse modo, voltou à estaca zero que é não
permitir a introdução da disciplina TEM no curso em formação.
O referendo foi posto em ata como “a maioria referenda a decisão”
de ambos, com ordem expressa do Dr. Cícero, de não anteceder
com as palavras “sem debate, sem discussão”. Certamente,
como tentativa de intimidar o proponente da introdução da
disciplina, o chefe Dr. Francisco fez um lastimoso discurso
quase exigindo que o proponente não mais usasse o termo
“rogar” em vão, pois não se deve “rogar” a
atenção das entidades ligadas à área desta ciência
para o fato, e sim “pedir” à Deus e às autoridades burocráticas
que aconselhem o proponente. O Dr. Agnaldo “pede” para
constar em ata que o proponente não utilize o nome das pessoas
em “vão”. O proponente entende esta súplica como desejo de
se auto-conhecer, ou seja, um “pedido” de auto-ajuda - não
expor a forma (nome), se não expuser também o conteúdo
(alma), pois assim se toma conhecimento de ambas as dimensões
da pessoa.
Segundo
caso.
Alguns colegas são chamados para uma reunião na
entidade de classe para discutir os rumos deste sindicato. De súbito,
nos informam que a inscrição de chapas para eleger uma que
regerá a entidade nos próximos anos se encerra no dia
seguinte. Dado o curto espaço de tempo, propõe-se que seja
formada uma chapa “relâmpago” para bater de frente com
qualquer chapa oportunista que queira se inscrever no dia
seguinte. A proposta não é “compreendida” por algumas das
pessoas e a chapa não é composta. No dia seguinte o proponente
constata que as pessoas que não “compreenderam” a proposta
estavam aproveitando a oportunidade para inscrever uma chapa
ainda por formar (deformada). O proponente pede que a chapa não
seja inscrita e, desse modo, se obteria tempo para uma discussão
mais ampla e envolvendo politicamente mais pessoas. A colega
afirma: “o mundo é dos espertos e não tenho culpa se vocês
são desarticulados”. O proponente reclama com o presidente da
entidade que responde: “fizeram vocês de tontos”.
No
primeiro caso fica explícita a “preferência revelada” e
institucionalizada pela irracionalidade. Pois a introdução da
TEM constituiria o espaço que a rosa-dos-ventos da TEC precisa
para deixar de se emaranhar e evoluir à TEM. No
segundo, o “oportunismo” (interesse próprio com trapaça)
que sempre se articula desarticulando e, desse modo, ao invés
de avançar, regride, atrofia a alma, ainda que se locupletando.
Explicação
científica dos casos
A contrariedade, mais especificamente a contradição,
rege esse “mundo das mercadorias” onde um simples
aperto de mãos tende a ser substituído por mercadorias (a tele-mensagem,
por exemplo).
Para expressar, matematicamente, esta relação de
contradição entre pólos contrários, utilizemos da função
das proporcionalidades inversas ou opostas, y=f(1/x).
esta função não tem limite no espaço da lógica formal ( que
se atém somente à forma e não considera o conteúdo).
Em outras palavras, a contrariedade parece não tem fim, é
infinita. No entanto, o limite desta função existe, mas é o
limite desta lógica para com aquela que a circunda, isto é, a
lógica dialética e se dá na unidade (1,1): 1/x = 1;
1=1.1; 1=1. A não existência do limite na lógica formal
implica na impossibilidade de nulificação do (exceto
exterminando o) pólo oposto. O idioma espanhol talvez seja o único
que traz uma ótima representação, portanto otimizada, deste
fato com o pronome “nosotros” (nós outros) por não
apresentar o fato de modo separado, disjunto, mas em conjunto.
Por outro lado, a lógica dialética também não pode
prescindir da lógica formal, pois só em conjunto pode
explicar o conteúdo da forma ou a aparência da
essência.
Algo semelhante acontece com a TEC e a TEM, pois a
primeira está contida na segunda e todas as indicações da
rosa-dos-ventos desta indicam a TEM e, desse modo, o mainstream
tem que dissimular e/ou utilizar da prestidigitação para
manter a TEC dominante academicamente, causando “deformações”.
Portanto, não formando profissionais adequadamente, mas
unilaterais, que somente consideram o preço das “coisas”
e desprezam propositalmente o valor que o determina – a Lei do
Valor. Enfim, profissionais que se atém, obstinadamente, à
improvável “lei” do mercado – a conhecida “mão
invisível”.
Ainda
sobre o limite como sendo a unidade de contrários ou bissetriz,
é preciso acrescentar dois fatos que
a TEC (utilizando somente da lógica formal) tenta agregá-los
(trazer para junto) através de modelos econométricos estocásticos
e que, evidentemente, não obtém sucesso. São estes os fatos:
Lênin fala em “salto vital”
para exemplificar a passagem do pólo dominante para unidade ou
síntese e muitos outros teóricos clássicos falam em “salto
gnosiológico”; por outro lado, parece ter sido Spinoza aquele
que primeiro salientou o aspecto oposto deste
“salto gnosiológico”, isto é, que o “resíduo” do pólo
dominado, aquela “porciúncula” ou “resto” que as
pessoas vêem como insignificante (a Estatística, como
“erro”), é, na verdade, aquilo que potencializa a síntese
ou superação positiva das contradições em geral: “anomalia
selvagem”- Spinoza; “anomia” – Comte; “resíduo” –
Pareto / Durkheim (este último intentou o “método dos resíduos”);
“mínimos detalhes” (Trotsky); “espírito animal”-
Keynes; “lêndea-valente” – Weibull/Binmore; “pequeno
canto do mundo”, “...o novo fundamento econômico para uma
forma mais elevada de família e de relações entre ambos os
sexos” (Marx, 1983, tomo I, 90-91).
Enfim, aquela família harmoniosa que, em meio a mais
ampla e profunda devastação das famílias em geral, se
desponta como família referencial por estabelecer a
troca de equivalentes (valor) em ambos os mundos – material e
imaterial – e, desse modo, refazendo ou corrigindo a “troca
desigual” em que o preço acoberta tanto as transferências
como as absorções de riqueza em geral. Mais, esta família
referencial, é a “aliada mais audaz” que o proletariado
pode ter, pois é o germe da Revolução Social, atualiza as
relações ao estabelecer a reciprocidade com base no valor e põe,
definitivamente, a moral.
Vejamos como a “contrariedade” ou um dos pólos tenta
se desenvolver (des-envolver) de seu oposto e, desse modo,
caracterizemos o “mundos das mercadorias” ou da “coisas”
onde nosso “conteúdo” (ou caráter, alma) segue a
mesma dinâmica, exceto no que diz respeito à transubstanciação.
Isto é, no mundo das coisas o dinheiro viabiliza a apropriação
do conteúdo via forma, ou seja, através do preço y se
apropria do valor x, mas no “mundo das representações”
ocorre a “atualização” ou “regressão”
da alma, do caráter das pessoas.
Quaisquer
das categorias marxistas podem ser expressas através deste
instrumental matemático que muitos pensam que é propriedade
exclusiva da lógica formal (ou da TEC). Por exemplo, o valor é
a síntese (bissetriz) da relação contraditória entre valor
de uso (tese) e valor de troca (antítese); o capital é a síntese
da relação entre a parte referente às máquinas, matéria-prima,
etc,Cc, e a parte referente à força de trabalho, Cv,
ou partes que compõem o capital, cuja fórmula é: D-M (MP e
FT- produção)-M-D’; através da compra / venda de
mercadorias (M) Ou seja, o capital é dinheiro (valor)
que se auto-valoriza (D’). Num gráfico, a reta do preço
corta a bissetriz, isto é, o preço oscila em torno do valor e
nos permite visualizar a transferência e absorção de riqueza
conforme a composição do capital - reta com pendente negativa
e tendendo a se sobrepor o eixo-y – e, ao mesmo tempo,
gerando uma superpopulação relativa (“excluídos”). Nos países
desenvolvidos (composição orgânica alta), o Estado do
bem-estar social até que dá conta da população que cresce
negativamente; nos países subdesenvolvidos, além da
super-exploração do trabalho (salário ou preço bem abaixo do
valor), o Estado “periférico” mal consegue dar conta do
segmento formal (carteira assinada) da população
economicamente ativa que ,por sua vez, é excessiva.
Entrevendo
a alma
Numa
situação dessas, a TEC nada mais pode fazer que apregoar a
“livre-iniciativa” e que nada nem ninguém interfira nos preços,
os quais devem ser deixados à égide do mercado (ainda que
tendo que instituir as “agências reguladoras”).
A
TEM, por outro lado, viabiliza a “auto-administração via
valor” ou “self-government” [auto-governo] que
é a verdadeira e eficaz “agência reguladora”
aludida por Marx em várias de suas obras. Isto no plano da
materialidade. Na subjetividade temos o “poder constituinte”
que é a “família referencial” e, há muito,
constatada por Elizabeth Bott em seu –
Família e rede social
– mostrando que “o grau de segregação dos papéis
conjugais está relacionado com o grau de conexão na rede total
da família [mercado]. Aquelas famílias que t[em] um
alto grau de segregação no relacionamento de papel do marido e
da esposa t[em] uma rede de malha estreita;... O grau de segregação
no relacionamento de papel entre marido e esposa varia
diretamente com a conexidade da rede social da família. Quanto
mais conexa à rede, maior o grau de segregação entre os papéis
do marido e da esposa”.
A
conexão à rede através de “malha frouxa” - caso
das poucas famílias congregadas - impede a interferência
brutal das relações mercadizadas e, ao mesmo, possibilita a
formação da resistência à lógica do capital. É desnecessário
recorrer às estatísticas para constatarmos que a conexidade
das famílias com o mercado cada vez aumenta mais, por isso cada
vez aumenta mais o número de separações, divórcios, enfim,
aumenta vertiginosamente o número de homens que se gabam por
registrar o seu “pomposo” nome no da bela mulher que acabam
perdendo (não o nome, mas a mulher), inclusive, para outra
mulher. Isto por tentar impor uma relação de não-equivalentes
(“mercadizada” e com trapaça; sempre querendo levar
vantagens sobre o outro), mas quando o(a) outro(a) percebe a “troca
desigual”, parte logo para outra relação, ainda que
negando, parcialmente, a “lei” de Deus (“porque o amor ao
dinheiro é a raiz de todos os males; e nessa cobiça alguns se
desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas
dores” I Tim. 6:10), mas afirmando a “Lei do Valor”
(ainda que inconscientemente), isto é, buscando um acordo, a
troca de equivalentes na subjetividade e que erige a ética –
tão em falta no caráter de muitos homens (e mulheres,
evidentemente). O espaço deixado pela falta desta substância
é ocupado pelas perturbações ou transtornos psicológicos que
determinam a práxis perturbada
- os “profetas da regressão”.
Sendo
assim, os nomes dos caro(a)s colegas oportunistas e impostores
referendários, não foram usados em “vão”, pois
apresentamos suas substâncias. Advertimos: não é através do
transtorno obsessivo compulsivo que estas atingirão o estado são.
Caso queiram fazer ciência e/ou política, isto é, práxis,
não mais se estranhem, “saltem” para a vida e nos juntemos
todos para a obtenção de vantagens sociais - sem medo de ser
feliz. Pois esta é a nossa práxis.
O
termo práxis perturbada aqui utilizado, foi emprestado
de José Revueltas (Dialéctica de la conciencia. 1ª
ed., México: Ediciones Era, 1986).
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