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As duas expressões acima penetraram no imaginário nacional nas últimas
semanas, quando da votação da emenda da reeleição, como símbolo da incúria política
de alguns congressistas, do seu descompromisso para com a nação e de acinte para com a
comunidade que os elegeu.
Foram manifestações de incontida alegria, de exaltação às demandas do executivo e as
possibilidades de entronizá-lo por mais quatro anos na cadeira presidencial, êxtase das
bancadas que, hoje, apóiam o governo.
Seu grito de vitória e regozijo, de "uh! tererê", em plenário, ao ser
proclamada a vitória do executivo, deu o tom do devotamento desse grupo e do seu
compromisso para com os acenos do governo. Mas, também, expressa a sede insaciável de
prestígio e a avidez de poder e privilégios. Quando não, a hipocrisia manifesta na
lealdade ao maneirismo do velho fazer político dos grotões, dada pelo
deputado acreano
Ronivon Santiago e compassas, ao vangloriarem-se de suas espertezas no negócio eleitoral;
Ronivon vendera seu voto por R$ 200 mil, e jubilou-se de que "não sou leso",
já que tinha certeza de que a tolerância não haveria de deixar denunciá-lo. Mas , por
ser falastrão, bateu com a língua nos dentes (micro-gravador), rompendo com a
"ética da malandragem", segundo a qual para se fazer uma coisa que não é
correta, tem de existir ética dos dois lados, ao mesmo tempo que deixa sob suspeita
alguns dos seus colegas.
Essa parte do legislativo é o polichinelo do parlamento, que reduz os eleitores à uma
ficção, mínima e sem densidade, que votam em eleições fantasmas, elegendo políticos
matreiros e sem escrúpulo.
Já o Presidente, com seu invejável currículo, se diminui ante a história, ao receber
no Palácio da Alvorada, na semana da votação da emenda da reeleição, na undécima
hora, os governadores do Estado do Amazonas e do Acre. Não é pelo fato de serem
governantes de estados periféricos, mas por procederem, politicamente, em suas regiões,
de maneira suspeita e estarem agindo quase sempre sob judice.
O governador Amazonino Mendes, do Amazonas, uma das reputações mais contraditórias da
República, vem pressionando o Governo Federal para que substitua o superintendente da
Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus), e nomeie para o cargo um seu
apaniguado, cujo mérito é a desqualificação por uma sindicância da própria
Suframa,
mas a lógica da escolha é assegurar o controle da Zona Franca, pois quem a possui detém
a chave do cofre da próxima campanha eleitoral. Foi assim em 1994, quando se elegeu
governador, do total de R$ 1,3 milhões doados para candidatura Amazonino, segundo o TRE,
apenas R$ 45 mil não saíram das empresas sob a jurisdição da Suframa.
Quanto ao governador Orlei
Cameli, do Acre, de perfil alcaponeano, opera com seis CPF's e
tem como destaque curricular a suspeita de chefiar uma quadrilha de contraventores que
atua, principalmente, com contrabando.
Ao serem recebidos no Palácio da Alvorada, tais personagens conquistam o
"habeas-corpus" moral, mas ao mesmo tempo enodoam o "sic transit gloria
mundi", do Presidente da República, proporcionado com a aprovação pelo Congresso
da emenda da reeleição. Portanto, ao ser abalado pelas denúncias de corrupção no
momento em que se preparava para solver as glórias alcançadas com a vitória no
Congresso, é de bom grado que o Presidente assuma a crítica de seu repto, de 1991, ao
proclamar que: "o Presidente da República, quando se ver em minoria no Congresso,
não pensa em negociar às claras com os partidos [...] Geralmente, acha mais fácil
apelar para o é dando que se recebe [...] Consegue, eventualmente, aprovar os projetos do
governo. Mas solapa a disciplina partidária, ajuda a desmoralizar a atividade política e
acabar agravando a instabilidade da sua própria base parlamentar. E assim se fecha o
círculo vicioso: fisiologismo, instabilidade, mais fisiologismo".
Do contrário, se o Presidente quer navegar no pacto das oligarquias, inspirado na máxima
maquiavélica de que se " se podia vencer pelo engano não tentava vencer pela
força, dizendo que a glória provém da vitória, não do modo como é obtida". Já
começa a colher os frutos do "uh! tererê, não sou leso", que é a queda da
popularidade de seu governo, pois uma sociedade mais informada e mais exigente começa a
cobrar fé pública dos atos dos servidores governamentais e entender que não há
barreiras invisíveis entre os ideais proclamados e sua prática cotidiana.
Assim, para que recomponha a confiança pública é necessário que se liberte da
apostasia, reencontre-se com seu currículo, não se deixe dominar pela "a entente
cordiale" das oligarquias, que sob o manto da esperteza, dissimulado pelo código da
hipocrisia, manobra no sentido de se manter hegemônica no comando político, econômico e
financeiro da Nação.
Por outro lado, reconheça que a sociedade brasileira não abdicou do direito à
cidadania, nem tão pouco desertou de sua luta por uma pátria mais digna e mais generosa;
o segundo passo é ouvir "a voz rouca das ruas" e efetivar seu discurso na
prática, recompondo a ética de seu governo mediante o apoio à instalação da CPI do
vale voto.
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