Maio/1997

UH, Tererê, eu não sou leso!!!

Francisco Cartaxo Melo

 

As duas expressões acima penetraram no imaginário nacional nas últimas semanas, quando da votação da emenda da reeleição, como símbolo da incúria política de alguns congressistas, do seu descompromisso para com a nação e de acinte para com a comunidade que os elegeu.

Foram manifestações de incontida alegria, de exaltação às demandas do executivo e as possibilidades de entronizá-lo por mais quatro anos na cadeira presidencial, êxtase das bancadas que, hoje, apóiam o governo.

Seu grito de vitória e regozijo, de "uh! tererê", em plenário, ao ser proclamada a vitória do executivo, deu o tom do devotamento desse grupo e do seu compromisso para com os acenos do governo. Mas, também, expressa a sede insaciável de prestígio e a avidez de poder e privilégios. Quando não, a hipocrisia manifesta na lealdade ao maneirismo do velho fazer político dos grotões, dada pelo deputado acreano Ronivon Santiago e compassas, ao vangloriarem-se de suas espertezas no negócio eleitoral; Ronivon vendera seu voto por R$ 200 mil, e jubilou-se de que "não sou leso", já que tinha certeza de que a tolerância não haveria de deixar denunciá-lo. Mas , por ser falastrão, bateu com a língua nos dentes (micro-gravador), rompendo com a "ética da malandragem", segundo a qual para se fazer uma coisa que não é correta, tem de existir ética dos dois lados, ao mesmo tempo que deixa sob suspeita alguns dos seus colegas.

Essa parte do legislativo é o polichinelo do parlamento, que reduz os eleitores à uma ficção, mínima e sem densidade, que votam em eleições fantasmas, elegendo políticos matreiros e sem escrúpulo.
Já o Presidente, com seu invejável currículo, se diminui ante a história, ao receber no Palácio da Alvorada, na semana da votação da emenda da reeleição, na undécima hora, os governadores do Estado do Amazonas e do Acre. Não é pelo fato de serem governantes de estados periféricos, mas por procederem, politicamente, em suas regiões, de maneira suspeita e estarem agindo quase sempre sob judice.

O governador Amazonino Mendes, do Amazonas, uma das reputações mais contraditórias da República, vem pressionando o Governo Federal para que substitua o superintendente da Suframa (Superintendência da Zona Franca de Manaus), e nomeie para o cargo um seu apaniguado, cujo mérito é a desqualificação por uma sindicância da própria Suframa, mas a lógica da escolha é assegurar o controle da Zona Franca, pois quem a possui detém a chave do cofre da próxima campanha eleitoral. Foi assim em 1994, quando se elegeu governador, do total de R$ 1,3 milhões doados para candidatura Amazonino, segundo o TRE, apenas R$ 45 mil não saíram das empresas sob a jurisdição da Suframa.

Quanto ao governador Orlei Cameli, do Acre, de perfil alcaponeano, opera com seis CPF's e tem como destaque curricular a suspeita de chefiar uma quadrilha de contraventores que atua, principalmente, com contrabando.

Ao serem recebidos no Palácio da Alvorada, tais personagens conquistam o "habeas-corpus" moral, mas ao mesmo tempo enodoam o "sic transit gloria mundi", do Presidente da República, proporcionado com a aprovação pelo Congresso da emenda da reeleição. Portanto, ao ser abalado pelas denúncias de corrupção no momento em que se preparava para solver as glórias alcançadas com a vitória no Congresso, é de bom grado que o Presidente assuma a crítica de seu repto, de 1991, ao proclamar que: "o Presidente da República, quando se ver em minoria no Congresso, não pensa em negociar às claras com os partidos [...] Geralmente, acha mais fácil apelar para o é dando que se recebe [...] Consegue, eventualmente, aprovar os projetos do governo. Mas solapa a disciplina partidária, ajuda a desmoralizar a atividade política e acabar agravando a instabilidade da sua própria base parlamentar. E assim se fecha o círculo vicioso: fisiologismo, instabilidade, mais fisiologismo".

Do contrário, se o Presidente quer navegar no pacto das oligarquias, inspirado na máxima maquiavélica de que se " se podia vencer pelo engano não tentava vencer pela força, dizendo que a glória provém da vitória, não do modo como é obtida". Já começa a colher os frutos do "uh! tererê, não sou leso", que é a queda da popularidade de seu governo, pois uma sociedade mais informada e mais exigente começa a cobrar fé pública dos atos dos servidores governamentais e entender que não há barreiras invisíveis entre os ideais proclamados e sua prática cotidiana.

Assim, para que recomponha a confiança pública é necessário que se liberte da apostasia, reencontre-se com seu currículo, não se deixe dominar pela "a entente cordiale" das oligarquias, que sob o manto da esperteza, dissimulado pelo código da hipocrisia, manobra no sentido de se manter hegemônica no comando político, econômico e financeiro da Nação.

Por outro lado, reconheça que a sociedade brasileira não abdicou do direito à cidadania, nem tão pouco desertou de sua luta por uma pátria mais digna e mais generosa; o segundo passo é ouvir "a voz rouca das ruas" e efetivar seu discurso na prática, recompondo a ética de seu governo mediante o apoio à instalação da CPI do vale voto.

Francisco Cartaxo Melo, é professor universitário e consultor organizacional.
 

Nos dê um retorno...

O que você achou deste artigo?

Excelente
Bom
Razoável
Fraco

Comentários:

Nome:

 

 

 
 
© O Farol - informativo da família. 1996-2006