Dezembro/2005

Diálogo do diálogo

Marcos Vasconcelos Filho

 

A contar dos tempos que as garras da memória, longinquamente, foram alcançar, que o diálogo (re)faz-se. Afinal, como os homens mudam, mudam também os conceitos. Achegaram-se até aqui os primeiros a dizer do diálogo a razão da transformação do mundo. Eu digo: verdade, no diálogo está a solução das Idades da história. Vem do diálogo dos primeiros homens ainda curvos; vem do balbuciar qualquer coisa por aqueles primeiros hominídeos ainda animalescos na suas brutas constituições ainda; vem dos filosofares todos nas escadarias clássicas, nos corredores das igrejas e dos palácios; vem de sempre. Vem da primeira investida da dialética como arte de dialogar; vem da segunda investida, feita em oposições de argumentos e de pensamentos em busca de harmonia, solução, evolução, aprendizagem de cada ser humano um com o outro.

            Não sei, mas parece que no mundo turbulento em que vivemos dialogar nunca se fez tão importante. Dialogar? Sim, conversar em busca de soluções, de entendimento; entendimento cada vez mais distante, num mundo em que imperam a violência, a mentira, a desconfiança, o pessimismo, o egoísmo individualista; em que o homem se fez impostura, sombra de seu ser próprio.

            Nas tortuosas linhas da história, desde que o homem é homem, nunca, em tempo algum, talvez, tenhamos chegado a tal desnível de humanidade. Nossos narizes são os “Nossos Senhores Narizes”, assim mesmo, alegorizados em maiúsculas feitas em letras garrafais de nossa desvergonha. A preocupação dos homens alcançou tal forma que seus afazeres se voltaram para o que não constrói. É que eles ainda não ouviram falar ou passaram uma borracha gigante em seus cérebros para que a visão não pudesse mais captar a verdadeira destinação do homem: tornar-se mais cível, humanizado, comprometido — primeiro consigo mesmo, é certo, porque sem nós mesmos não podemos alcançar mais ninguém —, mas também com os que nos rodeiam.

            Na gradação dos relacionamentos humanos, é no diálogo do pai e do filho, do irmão e da irmã, do marido e da esposa fiéis, do avô e do neto, do padrinho e do afilhado, dos amigos, dos colegas, de nós homens e mulheres com a arte e a ciência (pouco ciente, na maioria das vezes), de todos nós enfim, que se podem avistar as soluções de que tanto necessitamos na agitação de um mundo transformado a cada segundo, desconhecido de nossas próprias mãos, que o criamos naquelas noites em que o homem deu por brincar de “deus” (escrevo assim, em minúsculas aspeadas mesmo, para desígnio não apenas do deus religioso, mas no sentido de humanização que todos buscamos, para sermos e lutarmos por ser melhores do que fomos ontem, aprendendo a cada dia com nós mesmos e com aqueles que nos rodeiam e muitas das vezes desconhecemos).

            Na gradação dos relacionamentos humanos, é no diálogo que iremos achar, e sempre se foi achar, resposta para a compreensão menos incompreensível do mundo; mundo enigmático, pela desrazão dos instintos e pela ânsia incontida de mais e mais poder. Vaidade das vaidades mesmo é a de dispensar o diálogo, crentes homens e mulheres de que nos seus pedestais poderão mesmo alcançar, sozinhos com eles mesmos, pelos esforços seus próprios, na mesquinharia de seus cálculos solitários como os domingos cinzas, uma vida calma, tranqüila, sossegada, despreocupada, paciente, como se se postassem à sombra de uma árvore em que, de minuto em minuto, se desprendesse um fruto maduro. Se o fruto segue o enunciado daquele Newton que nos anunciou a gravitação universal, talvez ele tenha se esquecido de frisar que, não raras as oportunidades, despenca em nossas cabeças um fruto já apodrecido pela própria ganância da humanidade.

            Na gradação dos relacionamentos humanos, degradam-se os valores sem o diálogo, despedaçando-se em migalhas de costumes vis, utilitários, pragmáticos, tumultuosos, desassossegados, desvirtuados, funestos até, ruinosos tanto quanto o caráter volúvel que parece insistir em acompanhar os homens, feito filhos solteiros acompanham as mães enviuvadas.

            Na gradação dos relacionamentos humanos, vejo degradação. Do micro ao macro, da parte ao todo, da célula ao corpo, é no realismo embora pessimista da ausência de diálogo que se vão achar as alternativas de minorar os confrontos entre as relações pessoais, os relacionamentos dentro da família nuclear e da família num todo, interfamiliares, os relacionamentos entre gerações, enfim nas relações sociais de forma geral.

            E se diálogo digo, quero dizer que é no sadio confronto da conversa entre as pessoas que se poderá amenizar o verdadeiro confronto em que vivemos. Confronto de valores, em que se substituem conceitos de engrandecimento humano para se porem em lugar conceitos frívolos em boa dose.

            Nesta necessidade dialógica do mundo, monologamos e apenas isso. Monologar é importante, não o negaria, mas não é o fim último do diálogo, pois o diálogo é junção de duas partes: [1] o solilóquio, como diálogo com nós mesmos, questionando-nos por maior compreensibilidade nossa e do nosso mundo (o Liber soliloquium cunhado por Santo Agostinho) e o [2] diálogo entre as partes, entre os homens, em busca de mais maturidade e melhoria dos relacionamentos.

            Engraçado é que a idéia de escrever este texto me veio de tantos diálogos estabelecidos que não saberia dizer qual o que tenha me dado a idéia por iniciá-lo. Concebi-o primeiro com seu pano de fundo estritamente sociológico (até por convicções e pela afeição primeira de seu autor); mas logo então se vieram a mim juntar outros colóquios, quais sejam os filosóficos, os de certa dose moral de conduta humana e sua autodegradação, como igualmente os de impressão crítica do mundo, como nos exigiria a própria fundamentação dialética de qualquer diálogo e de sua situação no tempo em que vive, atualizando-se (como por exemplo, o pai que aconselha — dialogar! — o filho, e este dota-se de espírito crítico, analítico de conselhos de experiência de seu pai, a quem respeita e decide-se depois por suas próprias pernas a melhor trilha a seguir na responsabilidade que a vida nos exige tomar para nós em cada situação).

            Para se ter uma idéia, este meu texto sofreu influência até da economia. Ainda agora, lendo uma entrevista em revista de divulgação nacional de jovem economista lá das bandas sudestes, com seu quê de tímido e de retraído, chegou-se até mim o pensamento — por diálogo! — de que num Brasil de hoje e de sempre, moça nação ainda, somos infelizmente cidadãos práticos em demasia, sofrendo do que aquele chamaria “miopia temporal”. O que vem a ser esta anormalidade? Nossa disposição histórica para a pressa, com a preocupação com o presente, com o calor do momento, na pressão atual, sem a atenção devida no amanhã. Este amanhã será melhor se encontrarmos no diálogo, enfim, a paciência e a parcimônia para nos pouparmos a nós mesmos, prevenidos para o futuro. Enquanto outros países amadurecem suas vocações para o crescimento (em amplo sentido do termo), muito longe estamos e mais longe estaremos se dispensarmos o diálogo. À vocação de crescimento deve ir juntar-se a vocação de espera. Mediação, cautela, humildade, coletividade, harmonia: tudo nos dará familiaridade maior para com os nossos semelhantes, uma vez que só assim aprenderemos o que verdadeiramente serve para ser apre(e)ndido.

            Já se disse não haverem sido os homens os criadores dos diálogos, mas estes, as conversas, os “pés-de-orelha”, os clubes, as assembléias, as reuniões, as academias é quem são os efetivos feitores de nossa humanização. O diálogo tardará, mas — quem sabe? — talvez se torne o fanal que um dia foi: pedagogia para mais civilidade, maior humanidade.


Marcos Vasconcelos Filho é acadêmico do 2º ano de Ciências Sociais da UFAL

 

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