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A
contar dos tempos que as garras da memória,
longinquamente, foram alcançar, que o diálogo
(re)faz-se. Afinal, como os homens mudam, mudam também
os conceitos. Achegaram-se até aqui os primeiros a
dizer do diálogo a razão da transformação do mundo.
Eu digo: verdade, no diálogo está a solução das
Idades da história. Vem do diálogo dos primeiros
homens ainda curvos; vem do balbuciar qualquer coisa por
aqueles primeiros hominídeos ainda animalescos na suas
brutas constituições ainda; vem dos filosofares todos
nas escadarias clássicas, nos corredores das igrejas e
dos palácios; vem de sempre. Vem da primeira investida
da dialética como arte de dialogar; vem da segunda
investida, feita em oposições de argumentos e de
pensamentos em busca de harmonia, solução, evolução,
aprendizagem de cada ser humano um com o outro.
Não sei,
mas parece que no mundo turbulento em que vivemos
dialogar nunca se fez tão importante. Dialogar? Sim,
conversar em busca de soluções, de entendimento;
entendimento cada vez mais distante, num mundo em que
imperam a violência, a mentira, a desconfiança, o
pessimismo, o egoísmo individualista; em que o homem se
fez impostura, sombra de seu ser próprio.
Nas
tortuosas linhas da história, desde que o homem é
homem, nunca, em tempo algum, talvez, tenhamos chegado a
tal desnível de humanidade. Nossos narizes são os
“Nossos Senhores Narizes”, assim mesmo, alegorizados
em maiúsculas feitas em letras garrafais de nossa
desvergonha. A preocupação dos homens alcançou tal
forma que seus afazeres se voltaram para o que não
constrói. É que eles ainda não ouviram falar ou
passaram uma borracha gigante em seus cérebros para que
a visão não pudesse mais captar a verdadeira destinação
do homem: tornar-se mais cível, humanizado,
comprometido — primeiro consigo mesmo, é certo,
porque sem nós mesmos não podemos alcançar mais ninguém
—, mas também com os que nos rodeiam.
Na gradação
dos relacionamentos humanos, é no diálogo do pai e do
filho, do irmão e da irmã, do marido e da esposa fiéis,
do avô e do neto, do padrinho e do afilhado, dos
amigos, dos colegas, de nós homens e mulheres com a
arte e a ciência (pouco ciente, na maioria das vezes),
de todos nós enfim, que se podem avistar as soluções
de que tanto necessitamos na agitação de um mundo
transformado a cada segundo, desconhecido de nossas próprias
mãos, que o criamos naquelas noites em que o homem deu
por brincar de “deus” (escrevo assim, em minúsculas
aspeadas mesmo, para desígnio não apenas do deus
religioso, mas no sentido de humanização que todos
buscamos, para sermos e lutarmos por ser melhores do que
fomos ontem, aprendendo a cada dia com nós mesmos e com
aqueles que nos rodeiam e muitas das vezes
desconhecemos).
Na gradação
dos relacionamentos humanos, é no diálogo que iremos
achar, e sempre se foi achar, resposta para a compreensão
menos incompreensível do mundo; mundo enigmático, pela
desrazão dos instintos e pela ânsia incontida de mais
e mais poder. Vaidade das vaidades mesmo é a de
dispensar o diálogo, crentes homens e mulheres de que
nos seus pedestais poderão mesmo alcançar, sozinhos
com eles mesmos, pelos esforços seus próprios, na
mesquinharia de seus cálculos solitários como os
domingos cinzas, uma vida calma, tranqüila, sossegada,
despreocupada, paciente, como se se postassem à sombra
de uma árvore em que, de minuto em minuto, se
desprendesse um fruto maduro. Se o fruto segue o
enunciado daquele Newton que nos anunciou a gravitação
universal, talvez ele tenha se esquecido de frisar que,
não raras as oportunidades, despenca em nossas cabeças
um fruto já apodrecido pela própria ganância da
humanidade.
Na gradação
dos relacionamentos humanos, degradam-se os valores sem
o diálogo, despedaçando-se em migalhas de costumes
vis, utilitários, pragmáticos, tumultuosos,
desassossegados, desvirtuados, funestos até, ruinosos
tanto quanto o caráter volúvel que parece insistir em
acompanhar os homens, feito filhos solteiros acompanham
as mães enviuvadas.
Na gradação
dos relacionamentos humanos, vejo degradação. Do micro
ao macro, da parte ao todo, da célula ao corpo, é no
realismo embora pessimista da ausência de diálogo que
se vão achar as alternativas de minorar os confrontos
entre as relações pessoais, os relacionamentos dentro
da família nuclear e da família num todo,
interfamiliares, os relacionamentos entre gerações,
enfim nas relações sociais de forma geral.
E se diálogo
digo, quero dizer que é no sadio confronto da conversa
entre as pessoas que se poderá amenizar o verdadeiro
confronto em que vivemos. Confronto de valores, em que
se substituem conceitos de engrandecimento humano para
se porem em lugar conceitos frívolos em boa dose.
Nesta
necessidade dialógica do mundo, monologamos e apenas
isso. Monologar é importante, não o negaria, mas não
é o fim último do diálogo, pois o diálogo é junção
de duas partes: [1] o solilóquio, como diálogo com nós
mesmos, questionando-nos por maior compreensibilidade
nossa e do nosso mundo (o Liber soliloquium cunhado
por Santo Agostinho) e o [2] diálogo entre as partes,
entre os homens, em busca de mais maturidade e melhoria
dos relacionamentos.
Engraçado
é que a idéia de escrever este texto me veio de tantos
diálogos estabelecidos que não saberia dizer qual o
que tenha me dado a idéia por iniciá-lo. Concebi-o
primeiro com seu pano de fundo estritamente sociológico
(até por convicções e pela afeição primeira de seu
autor); mas logo então se vieram a mim juntar outros
colóquios, quais sejam os filosóficos, os de certa
dose moral de conduta humana e sua autodegradação,
como igualmente os de impressão crítica do mundo, como
nos exigiria a própria fundamentação dialética de
qualquer diálogo e de sua situação no tempo em que
vive, atualizando-se (como por exemplo, o pai que
aconselha — dialogar! — o filho, e este dota-se de
espírito crítico, analítico de conselhos de experiência
de seu pai, a quem respeita e decide-se depois por suas
próprias pernas a melhor trilha a seguir na
responsabilidade que a vida nos exige tomar para nós em
cada situação).
Para se ter
uma idéia, este meu texto sofreu influência até da
economia. Ainda agora, lendo uma entrevista em revista
de divulgação nacional de jovem economista lá das
bandas sudestes, com seu quê de tímido e de retraído,
chegou-se até mim o pensamento — por diálogo! — de
que num Brasil de hoje e de sempre, moça nação ainda,
somos infelizmente cidadãos práticos em demasia,
sofrendo do que aquele chamaria “miopia temporal”. O
que vem a ser esta anormalidade? Nossa disposição histórica
para a pressa, com a preocupação com o presente, com o
calor do momento, na pressão atual, sem a atenção
devida no amanhã. Este amanhã será melhor se
encontrarmos no diálogo, enfim, a paciência e a parcimônia
para nos pouparmos a nós mesmos, prevenidos para o
futuro. Enquanto outros países amadurecem suas vocações
para o crescimento (em amplo sentido do termo), muito
longe estamos e mais longe estaremos se dispensarmos o
diálogo. À vocação de crescimento deve ir juntar-se
a vocação de espera. Mediação, cautela, humildade,
coletividade, harmonia: tudo nos dará familiaridade
maior para com os nossos semelhantes, uma vez que só
assim aprenderemos o que verdadeiramente serve para ser
apre(e)ndido.
Já se disse
não haverem sido os homens os criadores dos diálogos,
mas estes, as conversas, os “pés-de-orelha”, os
clubes, as assembléias, as reuniões, as academias é
quem são os efetivos feitores de nossa humanização. O
diálogo tardará, mas — quem sabe? — talvez se
torne o fanal que um dia foi: pedagogia para mais
civilidade, maior humanidade.
Marcos Vasconcelos Filho é acadêmico do 2º ano de
Ciências Sociais da UFAL
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