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Há
um impasse que se insurge como fator-chave na compreensão
do papel da universidade brasileira e na produção do
conhecimento que esta propicia. (1) Para muitos, a
universidade teria por papel o conservantismo,
intimamente ligado a um modelo em que se sobressairia um
projeto tecnocrático de pedagogia instrumental, de mãos
dadas com o viés socioeconômico global. (2) Para
outros, porém, estaria em ser um projeto autônomo de
desenvolvimento, em que se sobressaíssem fatores
organizacionais que refletissem uma tentativa propícia
de se pensar uma missão crítica, reformista ou
radical, lastreada por princípios inovadores e não
apenas reprodutores. A universidade assim entendida
passaria a ter como protocélula-adjetiva o caráter
pragmático em (1), porquanto se nos apresente como
praxismo em (2).
As práticas normalmente hão-se confundido com a
práxis. Esta, não deixando, porém, de ser prática,
funda-se não apenas no “fazer”, no “executar”
ou no “agir”, mas a sua etimologia se estende até
uma significação que traspassa o termo, de modo a
compreender o comportamento moral, politizado, ético, não
tão-somente instrumental, direcionado, de teleologia
que obscurece o sentido do útil, do fazer, do validar,
do produzir, do conquistar e do superar e desenvolver.
Quando
fui convidado, há menos de semana, para abrir as páginas
deste jornal, dei de cara com impasses de impasses.
Pensar a universidade brasileira era para mim não
apenas pensar o seu papel na produção do conhecimento,
mas o fim a que leva e sustenta. O conhecimento passou a
ser por demais pragmático, afrontando o praxismo como
processo de auto-realização e autodeterminação
humanas. E foi deste modo que comecei a inquirir-me por
que isso tem relação com uma série de binômios em
oposição mutuamente relacionados, quais sejam: técnico
/ criativo; teórico / prático; reprodutor / inovador;
quantitativo / qualitativo; mecânico / sensível; aplicável
/ inaplicável. Esta progressão seqüencial de termos
é quase resultado natural do processo histórico do
mundo que diz respeito à finalidade do fazer conhecer.
Mais que uma questão de ciência, daí vai dar numa
importância não apenas do útil, mas do válido.
Não
de agora, um mestre meu confessava-me a sua aflição de
ser professor de universidades (assim pública como
particular) e ter de moldar-se, não aos seus gostos,
mas ao que o mercado lhe vinha exigindo. Contava-me ele
seu dilema profissional (e não apenas profissional,
todavia) que – malgrado a sua propensão à
transversalidade do pensamento ou seu gosto assumido
pela multidimensionalidade e multidisciplinaridade
dentro das ditas ciências humanas (e não só humanas)
– vinha sendo absorvido pelas pressões do mercado de
trabalho, este que lhe exigia o cumprimento de programas
e ementas pré-estabelecidas que se voltavam,
invariavelmente, para a praticidade da “passagem” do
conhecimento, de modo a “encaminhar” os graduandos
aos trilhos de manganês das exigências mercadológicas.
Isso me revelou o drama de quem quer fazer ciência
conservando opções, prazeres, escolhas e estar para além
dos ditames e obrigatoriedades que o formalismo e o
pragmatismo lhe têm exigido.
Inda
mais em ciências humanas, não só mestres, mas muito
mais alunos têm dado de cara com a questão: – Este
meu conhecimento apreendido servirá para alguma coisa
após minha graduação?! A pergunta parece soar como
silêncio ensurdecedor. Muitos acadêmicos parecem
refletir mesmo uma certa impaciência e temem, talvez,
caírem na “prática-teórica” (sem incluir omissos,
pois que em verdade se apresentariam em prática-impraticada).
Dizem-se esbaforidos de teorias e mais teorias e que seu
conhecimento não tem nada de prático. Terminam por
ceder à dissimulada prática-pragmática. Contrário
disso, a universidade é chamada para orientar estes
alunos desencontrados, apontando para o caminho possível,
mas distante: o de uma práxis. Se digo isso, não é práxis
no sentido estritamente emancipatório, nem
“perturbada”, mas, e também, deve ser levada em
conta qualquer opção social-democrática ou, mais
apropriadamente, quaisquer mecanismos
funcional-estruturais que permitam a organização autônoma
plural das universidades alagoanas e brasileiras.
Em
detrimento do teórico aliado à prática, prima-se por
uma teoria que, não podendo ser meta, não deveria ser
meia. Conhecimentos são parcelados, fragmentam-se
teorias e a prática permanece mecanicamente como num
giro de polias, numa engrenagem permanente que visa ao
resultado útil e quantitativo, que, se possui
qualidade, esta se mostra exterior ao ou além do próprio
homem, cumprindo cálculos e meios mais adequados de
atingir fins pré-estabelecidos, repetitivos, incapazes
de fugirem de sua própria desrazão. Cumprem uma razão
astuciosa e calculista-engessadora, num pragmatismo
manipulador que abate qualquer tentativa de politização
na construção do conhecimento interligado à sua
utilidade válida. Na própria contradição do termo práxis
não se encontrará apenas um outro sistema, mas na negação
da negação está a positividade de que o conhecimento
promovido nas universidades poderá ser remodelado,
redefinido e assim se achará ajustado às exigências
de uma verdadeira prática por que se reclama. A
universidade, como uma sociedade global em miniatura,
precisa convergir suas energias e convertê-las em críticas,
não-conformismos e aberturas à inovação. Só assim
consigo vislumbrar algum avanço.
Marcos Vasconcelos Filho é acadêmico do 2º ano de
Ciências Sociais da UFAL
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