Outubro/2005

Pragmatismo ou Praxismo

Marcos Vasconcelos Filho

 

Há um impasse que se insurge como fator-chave na compreensão do papel da universidade brasileira e na produção do conhecimento que esta propicia. (1) Para muitos, a universidade teria por papel o conservantismo, intimamente ligado a um modelo em que se sobressairia um projeto tecnocrático de pedagogia instrumental, de mãos dadas com o viés socioeconômico global. (2) Para outros, porém, estaria em ser um projeto autônomo de desenvolvimento, em que se sobressaíssem fatores organizacionais que refletissem uma tentativa propícia de se pensar uma missão crítica, reformista ou radical, lastreada por princípios inovadores e não apenas reprodutores. A universidade assim entendida passaria a ter como protocélula-adjetiva o caráter pragmático em (1), porquanto se nos apresente como praxismo em (2).

            As práticas normalmente hão-se confundido com a práxis. Esta, não deixando, porém, de ser prática, funda-se não apenas no “fazer”, no “executar” ou no “agir”, mas a sua etimologia se estende até uma significação que traspassa o termo, de modo a compreender o comportamento moral, politizado, ético, não tão-somente instrumental, direcionado, de teleologia que obscurece o sentido do útil, do fazer, do validar, do produzir, do conquistar e do superar e desenvolver.

Quando fui convidado, há menos de semana, para abrir as páginas deste jornal, dei de cara com impasses de impasses. Pensar a universidade brasileira era para mim não apenas pensar o seu papel na produção do conhecimento, mas o fim a que leva e sustenta. O conhecimento passou a ser por demais pragmático, afrontando o praxismo como processo de auto-realização e autodeterminação humanas. E foi deste modo que comecei a inquirir-me por que isso tem relação com uma série de binômios em oposição mutuamente relacionados, quais sejam: técnico / criativo; teórico / prático; reprodutor / inovador; quantitativo / qualitativo; mecânico / sensível; aplicável / inaplicável. Esta progressão seqüencial de termos é quase resultado natural do processo histórico do mundo que diz respeito à finalidade do fazer conhecer. Mais que uma questão de ciência, daí vai dar numa importância não apenas do útil, mas do válido.

Não de agora, um mestre meu confessava-me a sua aflição de ser professor de universidades (assim pública como particular) e ter de moldar-se, não aos seus gostos, mas ao que o mercado lhe vinha exigindo. Contava-me ele seu dilema profissional (e não apenas profissional, todavia) que – malgrado a sua propensão à transversalidade do pensamento ou seu gosto assumido pela multidimensionalidade e multidisciplinaridade dentro das ditas ciências humanas (e não só humanas) – vinha sendo absorvido pelas pressões do mercado de trabalho, este que lhe exigia o cumprimento de programas e ementas pré-estabelecidas que se voltavam, invariavelmente, para a praticidade da “passagem” do conhecimento, de modo a “encaminhar” os graduandos aos trilhos de manganês das exigências mercadológicas. Isso me revelou o drama de quem quer fazer ciência conservando opções, prazeres, escolhas e estar para além dos ditames e obrigatoriedades que o formalismo e o pragmatismo lhe têm exigido.

Inda mais em ciências humanas, não só mestres, mas muito mais alunos têm dado de cara com a questão: – Este meu conhecimento apreendido servirá para alguma coisa após minha graduação?! A pergunta parece soar como silêncio ensurdecedor. Muitos acadêmicos parecem refletir mesmo uma certa impaciência e temem, talvez, caírem na “prática-teórica” (sem incluir omissos, pois que em verdade se apresentariam em prática-impraticada). Dizem-se esbaforidos de teorias e mais teorias e que seu conhecimento não tem nada de prático. Terminam por ceder à dissimulada prática-pragmática. Contrário disso, a universidade é chamada para orientar estes alunos desencontrados, apontando para o caminho possível, mas distante: o de uma práxis. Se digo isso, não é práxis no sentido estritamente emancipatório, nem “perturbada”, mas, e também, deve ser levada em conta qualquer opção social-democrática ou, mais apropriadamente, quaisquer mecanismos funcional-estruturais que permitam a organização autônoma plural das universidades alagoanas e brasileiras.

Em detrimento do teórico aliado à prática, prima-se por uma teoria que, não podendo ser meta, não deveria ser meia. Conhecimentos são parcelados, fragmentam-se teorias e a prática permanece mecanicamente como num giro de polias, numa engrenagem permanente que visa ao resultado útil e quantitativo, que, se possui qualidade, esta se mostra exterior ao ou além do próprio homem, cumprindo cálculos e meios mais adequados de atingir fins pré-estabelecidos, repetitivos, incapazes de fugirem de sua própria desrazão. Cumprem uma razão astuciosa e calculista-engessadora, num pragmatismo manipulador que abate qualquer tentativa de politização na construção do conhecimento interligado à sua utilidade válida. Na própria contradição do termo práxis não se encontrará apenas um outro sistema, mas na negação da negação está a positividade de que o conhecimento promovido nas universidades poderá ser remodelado, redefinido e assim se achará ajustado às exigências de uma verdadeira prática por que se reclama. A universidade, como uma sociedade global em miniatura, precisa convergir suas energias e convertê-las em críticas, não-conformismos e aberturas à inovação. Só assim consigo vislumbrar algum avanço.


Marcos Vasconcelos Filho é acadêmico do 2º ano de Ciências Sociais da UFAL

 

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