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Uma
das características de maior significância da Internet
é a sua capacidade de expansão, seja em termos
quantitativos – com aumento do número de computadores
e de pessoas interligados – ou em termos qualitativos
– como as recentes transformações no conceito de páginas
e seus respectivos conteúdos. Ao longo dos últimos dez
anos a Internet brasileira foi palco de uma disputa
visceral entre aqueles que exaltavam o uso dessa
plataforma como meio de propagação de dados e informação
frente a outros que apenas queriam um espaço para suas
apresentações gráficas, polarizando assim o embate
entre a essência e a aparência, entre o conteúdo e a
forma, entre o discurso e a estética.
A
internet validou a idéia de que a Informação é o bem
mais precioso de uma organização de tal modo que
alguns estudiosos batizaram o conjunto de elementos que
compõem a conjuntura atual de Sociedade
da Informação, no entanto, com o surgimento da Web
2.0, cuja proposta visa uma participação muito maior
do navegador na geração de conteúdo digital, aqui no
Brasil a Informação sofreu uma depreciação enorme
devido à diminuição de fontes geradoras de conteúdo
de qualidade.
A
Informação está ficando banalizada devido a pelo
menos dois fatores: seus agentes não possuem formação
adequada e, portanto, não estão aptos a gerarem um
conteúdo de qualidade; o tipo de informação que é
publicada diz respeito mais a aspectos particulares e
subjetivos desses agentes em detrimento de uma produção
de maior envergadura. Esse problema tem origem na
predominância do acesso que é feito em Lan Houses e
assemelhados, segundo dados do TIC Domicílios 2007
(publicado pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil em
14/03/2008), cujo público é notadamente jovem, pouco
instruído, de baixa renda e concentrado nas regiões
mais pobres, Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil.
Desse modo, a subjetividade do usuário que poderia ser
motivo de reflexão não existe, é mera futilidade.
Não
se trata aqui de discriminar esses usuários senão de
reconhecer as suas deficiências e limitações para
tomar medidas no sentido de modificar essa circunstância,
pois antes a web era produzida por menos gente e agora,
como a plataforma está modificada de tal modo que
praticamente tudo é realizado coletivamente, de acordo
com a própria definição de Tim O’Reilley – quem
primeiro cunhou o termo Web 2.0, e, especificamente,
tratando da inteligência coletiva da qual se espera
mais contribuição e menos usufruto, pensamos que a
contribuição brasileira tem sido bastante pobre.
Por
isso propomos esta ponderação com o intuito de dar
forma a disciplina Educação Digital, já existente em
outros países e de maneira ainda embrionária aqui no
Brasil, com o objetivo especifico de conscientizar
o internauta navegador sobre o momento atual e as forças
que atuam na Internet, e educá-lo para o uso correto
das diversas ferramentas disponíveis, com noções de
ética, cidadania, segurança, privacidade, formando
agentes capazes de expressar a sua criatividade e gerar
conteúdo digital de qualidade. Se a inclusão
digital ocorre sem uma educação digital voltada para
os conteúdos não formaremos verdadeiros cidadãos
alfabetizados digitalmente e estaremos apenas aumentando
o número de “terminais burros” na rede.
Ao
fazer uma análise inicial do assunto mencionamos a
polarização entre a essência e a aparência, no
entanto, um fator que não podemos desprezar por ser a
mola propulsora do crescimento da web é o seu aspecto
comercial – uma das forças citadas anteriormente. E a
acirrada disputa entre as gigantes tecnológicas reflete
como o domínio comercial representa, na realidade, uma
espécie de controle da rede – vide Google e
associadas. Esse aspecto torna-se muito importante à medida que os controladores do
Google/Orkut no Brasil se negam a colaborar com as
investigações de casos de pedofilia na rede, por
exemplo, mesmo sendo detentor de 90% das denúncias de
pedofilia na Internet brasileira.
Segundo
o holandês
Geert Lovink, professor de Faculdade de Humanidades de
Amsterdam, e uma das referências críticas quando o
assunto é ciberespaço, “o controle da Internet é o
perfeito campo de batalha do século XXI”, e está
sendo disputado euro a euro ou dólar a dólar, ainda
que ele particularmente acredite que é o governo
norte-americano que exerce esse controle. Hoje, a maior
parte do conteúdo disponível na rede é gratuita, porém
ele espera que isso mude em pouco tempo. Já se fala de
um sistema de micropagos para direitos autorais e as
operadoras de telefonia tem comercializado com algum êxito
produtos para os aparelhos, como truetones, ringtones e
wallpapers. O portal iTunes também sinaliza o que se
pode esperar num curto espaço de tempo.
Com
relação às ferramentas, temos o exemplo do projeto
Penceil, no Reino Unido, que estuda como as
pessoas se deparam com o analfabetismo digital e como
atuam para superá-lo, onde os pesquisadores envolvidos
no projeto descobriram que a maior parte dos cursos
disponíveis para potenciais usuários de computadores
falha em ajudar os estudantes a fazer o que eles mais
querem. No topo desta lista está comunicação através
de e-mails, encontrar informações on-line e fazer
compras via web. De acordo com Mike Cushman, apesar do
projeto contar com tópicos mais avançados, como
contribuição em blogs, fóruns on line e noções de
privacidade, um grande problema é que a maior parte do
material para pessoas que querem utilizar PCs é voltado
para o uso no trabalho, não em casa. Aliás,
no caso dos mais jovens, é imprescindível a transposição
do conteúdo escolar para o computador seja através de
apresentações visuais ou jogos interativos.
Na
virada do milênio, a International Dates Corporation determinou quatro parâmetros para
avaliar o grau de inserção digital de uma sociedade:
com respeito à informação (capacidade de receber e
transmitir informação via telefone, fax, radio e tv),
quanto ao acesso ao computador (estender o seu uso nas
escolas, locais públicos, residências e redes de edifícios),
à Internet (expandir o seu uso nas escolas, locais públicos
e residências, permitindo o comércio eletrônico), e
crescimento social (capacidade do indivíduo de usar a
informação como instrução, livre dom de imprensa e
liberdade civil).
Notamos
que boa parte desses parâmetros já foi superada,
principalmente nos três primeiros itens. O desafio é
lançado quanto à capacidade do indivíduo de usar a
informação e a outros novos parâmetros, como o uso da
inteligência coletiva, que são estabelecidos quase que
automaticamente por causa das transformações recentes
na web. A esses podemos acrescentar à necessidade de
assimilar os limites entre privacidade e segurança,
reconhecendo que, embora não pareça, muitos crimes
previstos em lei são cometidos em território virtual e
podem ser qualificados. Calúnia, difamação, ofensa,
ameaça, escárnio, preconceito, jogos de azar ou violações
ao direito autoral poderão gerar responsabilidade aos
praticantes.
A
questão da ética e da cidadania deve ser levada em
consideração no envio de mensagens e na publicação
de textos atendendo à chamada Netiqueta
que contém regras gerais para comunicação via
E-mail, úteis para trocas de e-mail, participação em
listas de discussão e newsgroups,
blogs, etc. Um capítulo especial deverá ser
dedicado à propaganda na rede, inclusive divulgações
através de spams. O critério básico para todos é a
divulgação prévia das regras de uso, por exemplo,
quando se trata de uma lista de discussão ou de um newsgroup.
Para cadastros em sites deve-se divulgar a política de
privacidade do site e para envio de mensagens e recomendável
oferecer a opção do usuário retirar o nome do banco
de dados caso não queria receber novas mensagens.
A
Internet favorece a divulgação anônima de material
pornográfico, subversivo, suicida, nazista, e outras
muitas e variadas formas de manifestações de baixo calão.
Todo conteúdo dessa natureza deve ser denunciado,
inclusive quando grandes portais inadvertidamente
publicam imagens postadas por seus usuários, como no
caso do Orkut, Uol-K e outros semelhantes. E não se
deve dar todo crédito aos administradores desses
sistemas. De acordo com o procurador Sergio Gardenghi
Suiama, do Estado de São Paulo, “o serviço criado
pelo Google para proteger os ‘usuários do bem’ do
Orkut - ferramenta que bloqueia acesso a fotos e recados
do dono da página – está sendo usado pelos
criminosos para fechar o grupo e distribuir pornografia
por meio destas páginas.” Segundo o procurador, 75%
dos abusados notificados pela Safernet estão fechados
para o acesso público.
Ou seja, o que era para beneficiar o bem está sendo
mais do que útil para proliferar o mau.
Uma
das dificuldades atuais na rede é a de lidar com o
excesso de informações e distinguir um bom texto do
lixo cibernético. Aprender a selecionar, avaliar e
aproveitar uma informação encontrada representa hoje
um novo modelo de prática da cultura digital. Para o
professor Rogério da Costa, do Departamento de
Ciência da Computação da PUC-SP, “os agentes
inteligentes estão sendo apontados como a luz que
ilumina o caminho dos internautas curiosos, dos
pesquisadores e de tantos outros em suas tarefas
rotineiras”. Mas há quem acredite, como Ben Forta,
especialista da Adobe em Web 2.0, que a solução para
realizar uma boa peneira não está nos homens e sim nos
programas. Para ele, “quanto mais as ferramentas de
trabalho ficam melhores, menos lixo eletrônico é
enviado, e os usuários ficam mais educados e aprendem a
não responder a essas mensagens. Então, o incentivo
acaba e, conseqüentemente, o problema também acaba.”
Certamente
confiar excessivamente nos sistemas não resolverá a
questão da educação digital, pois é preciso ter
claro que os usuários é que devem ter o controle dos
programas. Além disso, temos que levar em conta que as
novas tecnologias têm liberado a mão-de-obra de
trabalhos tradicionais para dedicá-la às tarefas
superiores do pensamento, isto é, de acordo com Isabel
Cantón Mayo, da Universidade de León, na Espanha, para
exercitar o capital
intelectual, capacidade de gerar novo conhecimento
em qualquer âmbito do saber humano. Desse modo,
percebemos que é possível construir um novo modelo de
sociedade onde a tecnologia é posta a serviço do homem
sem que ele se torne um mero coadjuvante desse processo
ou, em casos extremos, um escravo totalmente
subserviente e cego.
Eduardo
Vasconcellos é coordenador técnico do Telecentro
Manoah
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