Julho/2008

Educação digital: para uma inclusão digital de conteúdos

Eduardo Vasconcellos

 

Uma das características de maior significância da Internet é a sua capacidade de expansão, seja em termos quantitativos – com aumento do número de computadores e de pessoas interligados – ou em termos qualitativos – como as recentes transformações no conceito de páginas e seus respectivos conteúdos. Ao longo dos últimos dez anos a Internet brasileira foi palco de uma disputa visceral entre aqueles que exaltavam o uso dessa plataforma como meio de propagação de dados e informação frente a outros que apenas queriam um espaço para suas apresentações gráficas, polarizando assim o embate entre a essência e a aparência, entre o conteúdo e a forma, entre o discurso e a estética.

A internet validou a idéia de que a Informação é o bem mais precioso de uma organização de tal modo que alguns estudiosos batizaram o conjunto de elementos que compõem a conjuntura atual de Sociedade da Informação, no entanto, com o surgimento da Web 2.0, cuja proposta visa uma participação muito maior do navegador na geração de conteúdo digital, aqui no Brasil a Informação sofreu uma depreciação enorme devido à diminuição de fontes geradoras de conteúdo de qualidade.

A Informação está ficando banalizada devido a pelo menos dois fatores: seus agentes não possuem formação adequada e, portanto, não estão aptos a gerarem um conteúdo de qualidade; o tipo de informação que é publicada diz respeito mais a aspectos particulares e subjetivos desses agentes em detrimento de uma produção de maior envergadura. Esse problema tem origem na predominância do acesso que é feito em Lan Houses e assemelhados, segundo dados do TIC Domicílios 2007 (publicado pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil em 14/03/2008), cujo público é notadamente jovem, pouco instruído, de baixa renda e concentrado nas regiões mais pobres, Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil. Desse modo, a subjetividade do usuário que poderia ser motivo de reflexão não existe, é mera futilidade.

Não se trata aqui de discriminar esses usuários senão de reconhecer as suas deficiências e limitações para tomar medidas no sentido de modificar essa circunstância, pois antes a web era produzida por menos gente e agora, como a plataforma está modificada de tal modo que praticamente tudo é realizado coletivamente, de acordo com a própria definição de Tim O’Reilley – quem primeiro cunhou o termo Web 2.0, e, especificamente, tratando da inteligência coletiva da qual se espera mais contribuição e menos usufruto, pensamos que a contribuição brasileira tem sido bastante pobre.

Por isso propomos esta ponderação com o intuito de dar forma a disciplina Educação Digital, já existente em outros países e de maneira ainda embrionária aqui no Brasil, com o objetivo especifico de conscientizar o internauta navegador sobre o momento atual e as forças que atuam na Internet, e educá-lo para o uso correto das diversas ferramentas disponíveis, com noções de ética, cidadania, segurança, privacidade, formando agentes capazes de expressar a sua criatividade e gerar conteúdo digital de qualidade. Se a inclusão digital ocorre sem uma educação digital voltada para os conteúdos não formaremos verdadeiros cidadãos alfabetizados digitalmente e estaremos apenas aumentando o número de “terminais burros” na rede.

Ao fazer uma análise inicial do assunto mencionamos a polarização entre a essência e a aparência, no entanto, um fator que não podemos desprezar por ser a mola propulsora do crescimento da web é o seu aspecto comercial – uma das forças citadas anteriormente. E a acirrada disputa entre as gigantes tecnológicas reflete como o domínio comercial representa, na realidade, uma espécie de controle da rede – vide Google e associadas. Esse aspecto torna-se muito importante à medida que os controladores do Google/Orkut no Brasil se negam a colaborar com as investigações de casos de pedofilia na rede, por exemplo, mesmo sendo detentor de 90% das denúncias de pedofilia na Internet brasileira.

Segundo o holandês Geert Lovink, professor de Faculdade de Humanidades de Amsterdam, e uma das referências críticas quando o assunto é ciberespaço, “o controle da Internet é o perfeito campo de batalha do século XXI”, e está sendo disputado euro a euro ou dólar a dólar, ainda que ele particularmente acredite que é o governo norte-americano que exerce esse controle. Hoje, a maior parte do conteúdo disponível na rede é gratuita, porém ele espera que isso mude em pouco tempo. Já se fala de um sistema de micropagos para direitos autorais e as operadoras de telefonia tem comercializado com algum êxito produtos para os aparelhos, como truetones, ringtones e wallpapers. O portal iTunes também sinaliza o que se pode esperar num curto espaço de tempo.

Com relação às ferramentas, temos o exemplo do projeto Penceil, no Reino Unido, que estuda como as pessoas se deparam com o analfabetismo digital e como atuam para superá-lo, onde os pesquisadores envolvidos no projeto descobriram que a maior parte dos cursos disponíveis para potenciais usuários de computadores falha em ajudar os estudantes a fazer o que eles mais querem. No topo desta lista está comunicação através de e-mails, encontrar informações on-line e fazer compras via web. De acordo com Mike Cushman, apesar do projeto contar com tópicos mais avançados, como contribuição em blogs, fóruns on line e noções de privacidade, um grande problema é que a maior parte do material para pessoas que querem utilizar PCs é voltado para o uso no trabalho, não em casa. Aliás, no caso dos mais jovens, é imprescindível a transposição do conteúdo escolar para o computador seja através de apresentações visuais ou jogos interativos.

Na virada do milênio, a International Dates Corporation determinou quatro parâmetros para avaliar o grau de inserção digital de uma sociedade: com respeito à informação (capacidade de receber e transmitir informação via telefone, fax, radio e tv), quanto ao acesso ao computador (estender o seu uso nas escolas, locais públicos, residências e redes de edifícios), à Internet (expandir o seu uso nas escolas, locais públicos e residências, permitindo o comércio eletrônico), e crescimento social (capacidade do indivíduo de usar a informação como instrução, livre dom de imprensa e liberdade civil).

Notamos que boa parte desses parâmetros já foi superada, principalmente nos três primeiros itens. O desafio é lançado quanto à capacidade do indivíduo de usar a informação e a outros novos parâmetros, como o uso da inteligência coletiva, que são estabelecidos quase que automaticamente por causa das transformações recentes na web. A esses podemos acrescentar à necessidade de assimilar os limites entre privacidade e segurança, reconhecendo que, embora não pareça, muitos crimes previstos em lei são cometidos em território virtual e podem ser qualificados. Calúnia, difamação, ofensa, ameaça, escárnio, preconceito, jogos de azar ou violações ao direito autoral poderão gerar responsabilidade aos praticantes.

A questão da ética e da cidadania deve ser levada em consideração no envio de mensagens e na publicação de textos atendendo à chamada Netiqueta que contém regras gerais para comunicação via E-mail, úteis para trocas de e-mail, participação em listas de discussão e newsgroups, blogs, etc. Um capítulo especial deverá ser dedicado à propaganda na rede, inclusive divulgações através de spams. O critério básico para todos é a divulgação prévia das regras de uso, por exemplo, quando se trata de uma lista de discussão ou de um newsgroup. Para cadastros em sites deve-se divulgar a política de privacidade do site e para envio de mensagens e recomendável oferecer a opção do usuário retirar o nome do banco de dados caso não queria receber novas mensagens.

A Internet favorece a divulgação anônima de material pornográfico, subversivo, suicida, nazista, e outras muitas e variadas formas de manifestações de baixo calão. Todo conteúdo dessa natureza deve ser denunciado, inclusive quando grandes portais inadvertidamente publicam imagens postadas por seus usuários, como no caso do Orkut, Uol-K e outros semelhantes. E não se deve dar todo crédito aos administradores desses sistemas. De acordo com o procurador Sergio Gardenghi Suiama, do Estado de São Paulo, “o serviço criado pelo Google para proteger os ‘usuários do bem’ do Orkut - ferramenta que bloqueia acesso a fotos e recados do dono da página – está sendo usado pelos criminosos para fechar o grupo e distribuir pornografia por meio destas páginas.” Segundo o procurador, 75% dos abusados notificados pela Safernet estão fechados para o acesso público. Ou seja, o que era para beneficiar o bem está sendo mais do que útil para proliferar o mau.

Uma das dificuldades atuais na rede é a de lidar com o excesso de informações e distinguir um bom texto do lixo cibernético. Aprender a selecionar, avaliar e aproveitar uma informação encontrada representa hoje um novo modelo de prática da cultura digital. Para o professor Rogério da Costa, do Departamento de Ciência da Computação da PUC-SP, “os agentes inteligentes estão sendo apontados como a luz que ilumina o caminho dos internautas curiosos, dos pesquisadores e de tantos outros em suas tarefas rotineiras”. Mas há quem acredite, como Ben Forta, especialista da Adobe em Web 2.0, que a solução para realizar uma boa peneira não está nos homens e sim nos programas. Para ele, “quanto mais as ferramentas de trabalho ficam melhores, menos lixo eletrônico é enviado, e os usuários ficam mais educados e aprendem a não responder a essas mensagens. Então, o incentivo acaba e, conseqüentemente, o problema também acaba.”

Certamente confiar excessivamente nos sistemas não resolverá a questão da educação digital, pois é preciso ter claro que os usuários é que devem ter o controle dos programas. Além disso, temos que levar em conta que as novas tecnologias têm liberado a mão-de-obra de trabalhos tradicionais para dedicá-la às tarefas superiores do pensamento, isto é, de acordo com Isabel Cantón Mayo, da Universidade de León, na Espanha, para exercitar o capital intelectual, capacidade de gerar novo conhecimento em qualquer âmbito do saber humano. Desse modo, percebemos que é possível construir um novo modelo de sociedade onde a tecnologia é posta a serviço do homem sem que ele se torne um mero coadjuvante desse processo ou, em casos extremos, um escravo totalmente subserviente e cego.

Eduardo Vasconcellos é coordenador técnico do Telecentro Manoah

 

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