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Desde
que o homem habitou a terra e multiplicou-se por sua
extensão uma preocupação comum e constante foi a sua
subsistência. Enquanto limitou-se a pequenas
comunidades tribais, o sustento esteve garantido pela
atividade agrícola familiar. Havia um certo equilíbrio
na sociedade rudimentar que comia aquilo que colhia. Mas
quando o comércio cresceu impelido pelo lucro e pela
ganância, a distância entre as camadas sociais foi
acentuada, dividindo-as entre ricos e pobres. O miserável
é um produto da modernidade. Mas o pobre, servo ou
escravo, que vivia com dificuldade para morar e comer,
era maioria na sociedade antiga. O tempo encarregou-se
de exacerbar os extremos que nem o capitalismo e o
comunismo conseguiram unir.
O
pobre, e hoje o miserável, passaram a ser um 'problema
social' sem solução conhecida para o poder público.
Aliás, pode-se dizer que a busca por uma saída é tema
recente, contido nos programas governamentais do estado
moderno. Nos últimos anos os liberais criaram o estado
do bem estar social, termos como inclusão social
passaram a preencher os noticiários e, aqui no Brasil,
o atual governo lançou o Fome Zero, prometendo três
refeições diárias aos marginalizados, mas em quase
dois anos de programa os resultados ainda não são notórios.
Institucionalmente, mesmo nos paises mais abastados, o
estado tem conseguido dissimular ou apenas esconder a
pobreza, enquanto os menos desenvolvidos demonstram
total impotência diante dessa mazela.
Porém,
se no âmbito público o homem não tem sido bem
sucedido, o mesmo não pode ser dito do privado, ou
melhor, se coletivamente o estado tem sido incapaz de
fazer frente à pobreza, o homem, individualmente, tem
em suas mãos o poder para mudar essa situação. Para
isso, basta que ele tome ciência desse poder que lhe
foi confiado. Se verificarmos as orientações dadas por
Moisés aos israelitas há mais de 3000 anos,
encontraremos sabedoria divina e um meio do homem
conservar e preservar a sua dignidade e, por que não
dizer, a humanidade. O código de conduta dos livros do
Pentateuco é considerado a revelação da vontade de
Deus para o povo de Israel e os princípios expostos ali
quando postos em prática produzem vida equilibrada e
liberdade.
Um
desses princípios é o do descanso sabático, que
repercute em diversas áreas. Por esse princípio, para
cada seis dias de trabalho, há um de descanso; para
cada seis anos trabalhados na terra, há um ano de
descanso para a terra. Do mesmo modo, o ano da remissão,
descrito no livro de Deuteronômio 15, ensina que a cada
sete anos todo credor, que emprestou ao seu próximo
alguma coisa, o quite. Assim, o devedor recebe o perdão
da sua dívida. Tratando-se de servo, ao sétimo ano,
deverá despedi-lo forro, ou seja, livre, e “não o
despedirás vazio” (v.13), mas dará uma 'indenização'
de acordo com o que Deus te tiver abençoado. Essa lei
tem um objetivo: “para que não haja pobre no meio de
ti” (v.4). E deve ser colocada em prática “pois
nunca cessará o pobre no meio da terra” (v.11a).
Há,
no entanto, uma distinção que é feita pela lei. Tudo
isso deverá ser praticado entre ti e teu irmão.
“Pelo que te ordeno, dizendo: livremente abrirás a
tua mão para o teu irmão, para o teu necessitado e
para o teu pobre na tua terra”. (v.11b)
Essa distinção visa estabelecer um diferencial
entre a nação de Israel e as nações vizinhas, entre
o Deus de Israel e os deuses vizinhos, ou, dito de outro
modo, entre a santidade e a iniqüidade. Diferença esta
que há de ser manifesta no agir individual e na
prosperidade material da nação “pois por esta causa
te abençoará o Senhor, teu Deus, em toda a tua obra e
em tudo no que puseres a mão”. (v.10)
Outrossim,
aquele que assim proceder adquire para si prosperidade
espiritual também. É o que afirma Jesus: “daí
esmolas do que tiverdes e eis que tudo vos será
limpo”. (Lc 11:41) Percebemos melhor o sentido do
texto quando o associamos ao que escreveu o profeta
Isaias que a vontade de Deus é também que repartas o pão
com o faminto e recolhas em casa os pobres desterrados,
e, vendo o nu, o cubras e não te escondas daquele que
é da tua carne, pois agindo dessa maneira romperá a
tua luz como a alva e a tua cura apressadamente brotará.
(Is 58:7-8) Isto é, aquele que abençoa o pobre é abençoado
por Deus recebendo libertação, cura e ainda mais a
promessa de que “se abrires a tua alma ao faminto e
fartares a alma aflita” (v.10) o Senhor também fartará
a tua alma em lugares secos e fortificará os teus
ossos. Esses lugares secos são os desertos, as
dificuldades, as tribulações, lugares onde os espíritos
imundos que tem saído do homem andam buscando repouso.
(Mt 12:43) Todavia, esses espíritos não encontrarão
repouso em ti.
Contudo,
um esclarecimento deve ser feito sobre este assunto
devido a uma controvérsia sobre a interpretação das
cartas de Paulo e do livro de Tiago, irmão de Jesus.
Tiago, bispo da Igreja de Jerusalém, escreveu que “a
fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma”
(2:17) dando margem à crença de que caso alguém não
praticasse boas obras não teria parte no Reino dos Céus.
Por outro lado, o apóstolo Paulo afirma que a salvação
é dom de Deus e é pela graça, por meio da fé. “Não
vem das obras, para que ninguém se glorie”. (Ef
2:8-9) Essa aparente controvérsia deve-se ao fato de
que Paulo combatia o legalismo como via de acesso à
salvação, enquanto que Tiago se voltava contra uma
comunidade acomodada, que usava a justificação pela fé
como pretexto para sua inércia. (ALTMANN, 1994) Uma
leitura mais demorada nos mostra que o texto de Paulo
afirma que somos “criados em Cristo Jesus para as boas
obras” (Ef 2:10) e, se acrescentarmos a explicação
de Tiago de que “pelas obras, a fé foi aperfeiçoada”
(Tg 2:22), veremos que não há contradição na
mensagem do evangelho: a salvação, é de Deus e, as
boas obras, dos salvos que buscam a perfeição.
Por
último, as recomendações feitas por Jesus revelam que
as bênçãos para aquele que pratica as boas obras são
acrescentadas durante a vida terrena - “Mas, quando tu
deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a
tua direita, para que a tua esmola seja dada ocultamente,
e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará
publicamente” (Mt 6:4) , e até a eternidade
“fazei para vós bolsas que não se envelheçam,
tesouro nos céus que nunca se acabe”. (Lc 12:33)
Eduardo
Vasconcellos
** O título deste artigo faz referência à mensagem
propagada pela Secretaria de Ação Social do Estado de
Alagoas: ‘Quem dá esmola, não dá futuro - não dê
esmola’.
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