Novembro/2008

Por que o livro e a leitura?

Eduardo Vasconcellos

 

Alguém poderá indagar o por quê da pergunta. Mas é que a resposta as vezes não é tão óbvia assim. Talvez por isso deva-se formular a questão de outro modo: Por que investir no livro quando vivemos na sociedade da informação onde a tecnologia favorece uma relação virtual com o objeto que fornece o conhecimento? Se há dez anos atrás, com o surgimento da Internet e o seu crescimento desmesurado imaginou-se a extinção do livro num curto espaço de tempo?

A questão exige uma resposta um pouco mais demorada porque envolve diversas variáveis. Inicialmente podemos avaliar que o interesse do público pela leitura como opção a ser aproveitada no tempo livre, segundo dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, é de 35% e ocupa a 5a posição na preferência, enquanto o acesso a Internet, que é a atividade preferida de 18%, está na 14a posição. 

Isso pode ser decorrente da falta de computadores em regiões mais pobres e, conseqüentemente, da inexistência da Internet também. Porém, onde há computadores e acesso, a leitura de livros não é a principal atividade desenvolvida na Internet e, segundo a pesquisa TIC Domicílios 2007, ela nem aparece nessa relação que é encabeçada pela comunicação seja ela feita através de e-mail, do MSN ou do Orkut.

Na realidade, os leitores gostam de ler em lugares silenciosos (84%), preferencialmente em casa (86%). Isso demonstra que apesar da avalanche digital, o livro continua mantendo um status caprichosamente cuidado, e a leitura é atividade realizada na grande maioria das vezes a sós. 

Desse modo, é razoável aceitar pelo menos duas situações: Primeiro, a leitura é uma atividade desvinculada do uso do computador, onde o leitor sente o prazer de ler o livro tal como ele é, com folhas, encadernado, em detrimento do formato digital da tela do computador. Segundo, mesmo com todas as dificuldades que se colocam com relação à distribuição do livro, do preço final ao consumidor, etc, o livro é extremamente mais barato que o computador e, por essa razão, tem chegado a paragens aonde um PC convencional dificilmente chegaria.

Portanto, o investimento numa política pública de distribuição de livros e de valorização do livro como suporte para difusão do conhecimento tem que ser trazida à tona. Pois a finalidade do livro é que deve ser tida em conta e, nesse aspecto, autoridades, gestores e leitores concordam que esta é adquirir conhecimento, dar educação. Um bom livro pode ensinar muitas coisas úteis, pode educar, pode ensinar a refletir, pode simplesmente distrair, no entanto, o fato é que um leitor assíduo é também um bom orador e um bom escritor, qualidades que não podem ser desenvolvidas sem a leitura.

Há boas razões para um grande investimento no livro mesmo nos dias de hoje. Uma delas é a econômica. O livro é mais barato e, pelo preço de um computador, pode-se encher uma estante com bons livros. Se a finalidade é a educação, o conhecimento, enfim, a atividade intelectual, o livro é muito mais indicado que o computador. Para o sociólogo alagoano Sávio de Almeida, esse tipo de investimento obedece a uma questão aritmética, ou seja, o capital intelectual do Estado está depositado nas pessoas e por essa razão quanto mais pessoas forem bem instruídas e educadas, maiores serão as chances do Estado produzir grandes pensadores, grandes cientistas, grandes realizadores, e prosperar enquanto sociedade.

A dificuldade desse processo reside em alguns outros dados da pesquisa do Instituto Pró-Livro. No Brasil, pouco mais da metade (55%) da população tem o hábito de ler. A maioria (73%) dos leitores não freqüentam bibliotecas e tem seus livros comprados ou presenteados. O leitor brasileiro vai deixando de ler conforme vai crescendo; ele lê mais quando está na escola e na universidade.
Para fazer frente a esses números, existem projetos de incentivo à leitura, os mais variados e criativos, porém esbarram na falta de recursos. As negociações para a criação do Fundo Pró-Leitura estão adiantadas e este pode ser criado a qualquer momento, beneficiando diretamente as ações do Plano Nacional do Livro e Leitura com recursos que podem chegar a R$ 46 milhões. Tudo isso visando desenvolver o hábito da leitura e formar novos leitores, daqueles que não se intimidam diante de versões produzidas para os estúdios cinematográficos ou televisivos e possam dizer: a versão original, do livro, é bem melhor!!!

 

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