Analgésicos, pílulas, injeções e
tratamentos para curar o corpo são parte da rotina de
hospitais. Em paralelo ao sofrimento físico, no
entanto, os males mais dolorosos também contaminam o
espírito dos pacientes, que precisam de algo que a
medicina sozinha não é capaz de suprir em seu
conhecimento: a necessidade de conforto, de acolhimento
para lidar com a doença.
Esse tipo de atendimento é previsto
em lei federal – que dá ao usuário do sistema de
saúde o direito à assistência religiosa ou espiritual
– e ratificado na Lei do Serviço Voluntário. No
mundo inteiro, ações que incluem a espiritualidade no
conceito de saúde vêm ganhando força por se revelarem
parte fundamental na condução da terapêutica de
doenças, entre elas o câncer.
Cada vez mais, a ciência se aproxima
da espiritualidade, a partir de uma visão do
atendimento humanizado ao paciente. Professor e
psiquiatra do Departamento de Psiquiatria e Ciências do
Comportamento do Memorial Sloan- Kettering Cancer
Center, em Nova York, nos Estados Unidos, William
Breitbart aposta nessa tendência.
O especialista desenvolveu um método
de psicoterapia para melhorar o bem-estar espiritual de
pacientes sem possibilidades de cura e coordena vários
estudos que demonstram a eficácia desse cuidado em
oncologia. “Os resultados mostram que aqueles que
conseguem manter um senso de propósito e bem-estar
espiritual têm menos depressão, desesperança e mais
qualidade de vida”, afirma Breitbart.
A espiritualidade, particularmente em
seus aspectos não religiosos - que enfocam o
significado e o propósito da vida ao enfrentar uma
doença como o câncer -, pode ser utilizada no cuidado
com o paciente. “Intervenções baseadas no
significado da vida e na dignidade já estão em teste e
provavelmente serão utilizadas clinicamente no futuro”,
prevê o psiquiatra.
Sentido para a vida
A ideia é compartilhada por outro
psiquiatra do mesmo departamento do Memorial
Sloan-Kettering Cancer Center, Jimmy Holland. Ele
defende que o paciente oncológico, em casos de
terminalidade, deve aprender a lidar com a possível
proximidade da morte. Pessoas que enfrentam a doença se
sentem gratificadas com suas crenças religiosas e
espirituais.
“Quem tem convicções mais
fortes antes de adoecer utiliza esse recurso para lidar
melhor com a situação. Outros apoiam-se em ideias
filosóficas, o que também os ajuda a aceitar o
sofrimento”, declara o psiquiatra.
A psicóloga Ana Valéria Miceli, do
Hospital do Câncer I, do Instituto Nacional de Câncer
(INCA), considera que a chamada dor espiritual ocorre
quando existe ameaça à existência e a pessoa não
encontra sentido para aquilo que vive e tem a sensação
de estar desamparada.
Segundo a profissional, é possível
melhorar todas as formas de dor, mesmo a física, quando
o paciente sente-se confortado espiritualmente e
cuidado, tanto fisicamente quanto psicológica e
socialmente.
“O conforto espiritual
facilita a compreensão do que se passa, deixa o
paciente apaziguado e o familiar com mais equilíbrio
emocional para auxiliar o doente, o que torna menos
difícil as relações com a equipe responsável pelo
tratamento”, afirma Ana Valéria.
Para a psicóloga, esse tipo de
cuidado é importante também para os profissionais.
Necessidades subjetivas O cirurgião oncológico do
Hospital do Câncer I, José Adalberto Fernandes
Oliveira, coordena o Núcleo de Assistência Voluntária
Espiritual (NAVE), do INCA, inaugurado em setembro de
2009.
O embrião da ideia surgiu em 2007.
“Hoje, temos uma estrutura que conta com nove
voluntários das religiões católica, evangélica,
espírita e messiânica, além de 60 pessoas aguardando
para auxiliar quem precisa”, conta o médico. José
Adalberto explica que o trabalho não fica restrito à
capela no quarto andar do hospital, mas é feito em toda
a unidade.
Os participantes, todos voluntários,
são selecionados e treinados recebem noções de
ética, psicooncologia e orientação sobre controle de
infecção hospitalar. “A assistência espiritual atua
onde a ciência não dá conta e a moral se atrapalha”,
destaca o cirurgião.
E, para dar uma dimensão
simples de uma atividade tão complexa, explica a sua
teoria. “Deus é a comunicação e a religião é o
idioma para falar com Ele”, compara. Um dos pioneiros
em suprir necessidades subjetivas de pacientes em
instituições de saúde é o Comitê de Assistência
Religiosa (CARE), do Hospital das Clínicas da Faculdade
de Medicina da Universidade de São Paulo, instituído
em 1945.
O princípio básico dos integrantes
do CARE – padres e pastores – é atender as pessoas
em sua individualidade. É o que ressalta o padre
Anísio Baldessin, um dos idealizadores do comitê
oficializado em 2004. “As pessoas podem ou não ter
uma religião, que pode ser igual ou diferente daquela
que o integrante do CARE professa. Acima de tudo,
atendemos pessoas”, afirma.
Apoio com orações e silêncio Os
voluntários do CARE fazem orações e visitas a
pacientes nos leitos, realizam celebrações de missas e
cultos. Enfermeiro, teólogo e integrante da Comissão
de Bioética do Hospital das Clínicas da Universidade
de São Paulo (USP), Luís Roberto Pinheiro Braga,
clérigo da Igreja Presbiteriana Brasileira, ressalta
que o conceito de assistência religiosa em unidades de
saúde hoje é mais amplo.
Envolve, além das celebrações e
sacramentos, pesquisas em religiosidade e
espiritualidade aplicadas ao processo terapêutico, e
participação no desenvolvimento integrado do bem-estar
do paciente e de seus familiares, e de profissionais de
saúde. Ele destaca que, por ser hospital público, a
assistência espiritual tem fundamento ecumênico.
“Caso um paciente peça um
representante de sua religião, nós providenciamos sua
vinda”, detalha o clérigo, que confia nas
inspirações do espírito de Deus para consolar quem
sofre. “Muitas vezes, porém, o nosso silêncio
profundo transmite mais solidariedade do que as
palavras.
Afagar a mão ou o rosto de um
paciente é celebrar mais a esperança do que tentar
explicá-la”, acredita. Conforto no dia a dia É
exatamente para ajudar a tornar mais leve a rotina do
hospital que a voluntária Cacilda Pinto, do Núcleo de
Assistência Voluntária Espiritual do INCA,
trabalha.
Messiânica, prestes a se aposentar,
sente-se bem em sua atividade no hospital, onde fica de
plantão para prestar conforto espiritual a pacientes ou
profissionais. “Só fazendo o próximo feliz é que
encontramos a felicidade. Através do pensamento e da
oração, peço que Deus fique no comando da situação
e auxilie quem nos procura”, comenta Cacilda,
acrescentando que é preciso encarar a doença
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