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Agosto/2010

Se quiser falar com Deus

Analgésicos, pílulas, injeções e tratamentos para curar o corpo são parte da rotina de hospitais. Em paralelo ao sofrimento físico, no entanto, os males mais dolorosos também contaminam o espírito dos pacientes, que precisam de algo que a medicina sozinha não é capaz de suprir em seu conhecimento: a necessidade de conforto, de acolhimento para lidar com a doença. 

Esse tipo de atendimento é previsto em lei federal – que dá ao usuário do sistema de saúde o direito à assistência religiosa ou espiritual – e ratificado na Lei do Serviço Voluntário. No mundo inteiro, ações que incluem a espiritualidade no conceito de saúde vêm ganhando força por se revelarem parte fundamental na condução da terapêutica de doenças, entre elas o câncer. 

Cada vez mais, a ciência se aproxima da espiritualidade, a partir de uma visão do atendimento humanizado ao paciente. Professor e psiquiatra do Departamento de Psiquiatria e Ciências do Comportamento do Memorial Sloan- Kettering Cancer Center, em Nova York, nos Estados Unidos, William Breitbart aposta nessa tendência. 

O especialista desenvolveu um método de psicoterapia para melhorar o bem-estar espiritual de pacientes sem possibilidades de cura e coordena vários estudos que demonstram a eficácia desse cuidado em oncologia. “Os resultados mostram que aqueles que conseguem manter um senso de propósito e bem-estar espiritual têm menos depressão, desesperança e mais qualidade de vida”, afirma Breitbart. 

A espiritualidade, particularmente em seus aspectos não religiosos - que enfocam o significado e o propósito da vida ao enfrentar uma doença como o câncer -, pode ser utilizada no cuidado com o paciente. “Intervenções baseadas no significado da vida e na dignidade já estão em teste e provavelmente serão utilizadas clinicamente no futuro”, prevê o psiquiatra. 

Sentido para a vida 

A ideia é compartilhada por outro psiquiatra do mesmo departamento do Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, Jimmy Holland. Ele defende que o paciente oncológico, em casos de terminalidade, deve aprender a lidar com a possível proximidade da morte. Pessoas que enfrentam a doença se sentem gratificadas com suas crenças religiosas e espirituais.

 “Quem tem convicções mais fortes antes de adoecer utiliza esse recurso para lidar melhor com a situação. Outros apoiam-se em ideias filosóficas, o que também os ajuda a aceitar o sofrimento”, declara o psiquiatra. 

A psicóloga Ana Valéria Miceli, do Hospital do Câncer I, do Instituto Nacional de Câncer (INCA), considera que a chamada dor espiritual ocorre quando existe ameaça à existência e a pessoa não encontra sentido para aquilo que vive e tem a sensação de estar desamparada. 

Segundo a profissional, é possível melhorar todas as formas de dor, mesmo a física, quando o paciente sente-se confortado espiritualmente e cuidado, tanto fisicamente quanto psicológica e socialmente.

 “O conforto espiritual facilita a compreensão do que se passa, deixa o paciente apaziguado e o familiar com mais equilíbrio emocional para auxiliar o doente, o que torna menos difícil as relações com a equipe responsável pelo tratamento”, afirma Ana Valéria. 

Para a psicóloga, esse tipo de cuidado é importante também para os profissionais. Necessidades subjetivas O cirurgião oncológico do Hospital do Câncer I, José Adalberto Fernandes Oliveira, coordena o Núcleo de Assistência Voluntária Espiritual (NAVE), do INCA, inaugurado em setembro de 2009. 

O embrião da ideia surgiu em 2007. “Hoje, temos uma estrutura que conta com nove voluntários das religiões católica, evangélica, espírita e messiânica, além de 60 pessoas aguardando para auxiliar quem precisa”, conta o médico. José Adalberto explica que o trabalho não fica restrito à capela no quarto andar do hospital, mas é feito em toda a unidade. 

Os participantes, todos voluntários, são selecionados e treinados recebem noções de ética, psicooncologia e orientação sobre controle de infecção hospitalar. “A assistência espiritual atua onde a ciência não dá conta e a moral se atrapalha”, destaca o cirurgião.

 E, para dar uma dimensão simples de uma atividade tão complexa, explica a sua teoria. “Deus é a comunicação e a religião é o idioma para falar com Ele”, compara. Um dos pioneiros em suprir necessidades subjetivas de pacientes em instituições de saúde é o Comitê de Assistência Religiosa (CARE), do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, instituído em 1945. 

O princípio básico dos integrantes do CARE – padres e pastores – é atender as pessoas em sua individualidade. É o que ressalta o padre Anísio Baldessin, um dos idealizadores do comitê oficializado em 2004. “As pessoas podem ou não ter uma religião, que pode ser igual ou diferente daquela que o integrante do CARE professa. Acima de tudo, atendemos pessoas”, afirma. 

Apoio com orações e silêncio Os voluntários do CARE fazem orações e visitas a pacientes nos leitos, realizam celebrações de missas e cultos. Enfermeiro, teólogo e integrante da Comissão de Bioética do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), Luís Roberto Pinheiro Braga, clérigo da Igreja Presbiteriana Brasileira, ressalta que o conceito de assistência religiosa em unidades de saúde hoje é mais amplo. 

Envolve, além das celebrações e sacramentos, pesquisas em religiosidade e espiritualidade aplicadas ao processo terapêutico, e participação no desenvolvimento integrado do bem-estar do paciente e de seus familiares, e de profissionais de saúde. Ele destaca que, por ser hospital público, a assistência espiritual tem fundamento ecumênico. 

“Caso um paciente peça um representante de sua religião, nós providenciamos sua vinda”, detalha o clérigo, que confia nas inspirações do espírito de Deus para consolar quem sofre. “Muitas vezes, porém, o nosso silêncio profundo transmite mais solidariedade do que as palavras.

 Afagar a mão ou o rosto de um paciente é celebrar mais a esperança do que tentar explicá-la”, acredita. Conforto no dia a dia É exatamente para ajudar a tornar mais leve a rotina do hospital que a voluntária Cacilda Pinto, do Núcleo de Assistência Voluntária Espiritual do INCA, trabalha. 

Messiânica, prestes a se aposentar, sente-se bem em sua atividade no hospital, onde fica de plantão para prestar conforto espiritual a pacientes ou profissionais. “Só fazendo o próximo feliz é que encontramos a felicidade. Através do pensamento e da oração, peço que Deus fique no comando da situação e auxilie quem nos procura”, comenta Cacilda, acrescentando que é preciso encarar a doença

 

 

 
 
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