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Desde
longa data e, em todo território global, a questão
latifundiária é, por assim dizer, vital. Vital para o
seu proprietário, para o homem colono da sua porção,
que dela retira o seu sustento. Vital porque por porções
maiores e menores muito sangue foi derramado, fazendo
que o seu valor aumentasse e a sua posse fosse
considerada um privilégio restrito a dez tantos
enquanto noventa tantos a perseguisse como um objetivo
de vida muitas vezes inalcançável.
Pó
na essência e de fato, quando demarcada e registrada,
no direito, torna-se um papel, escriturado. Mesmo assim,
ela continua a mesma, pó. Se molhada, cheira diferente,
para muitos um aroma agradável e inesquecível, sinônimo
de um bucolismo distante da vida metropolitana. Se seca,
quente, seus vapores produzem um bochorno inconfundível
que recorda a aridez do sertão.
Alheia
às propostas de reforma e redistribuição, ela é
proprietária de recurso incontável contido em sua
profundeza, somente atingível com mecanismos
sofisticados de escavação e extração. Nesse
particular, revela-se senhora de si em seu domínio de
riquezas longamente estendido, que nunca se farta de água.
Por
sua extensão, aliás, atinge-se os quatro cantos, ou as
quatro extremidades do globo. Lugar onde nascem os
ventos, onde, se contemplado desde as alturas, o
firmamento a ela se une no horizonte. Lugar onde finda o
arco, sinal de aliança de um povo escolhido que crê
naquele que mediu os céus e pesou os montes e os
outeiros em balanças.
Na
boca do profeta, pela sua palavra, o céu é plantado e
ela é fundada num recanto onde mana leite e mel, onde há
novidade de vida e dela em abundância. Lá, onde o
deserto é confundido, onde o ermo seco reverdece, se
alegra e exulta. Lá, onde tudo é feito novo, com nova
medida de justiça, e brotam fontes de águas vivas no
meio dos vales. Lá, onde crescem juntas a árvore de
sita, o cedro, a murta e a oliveira.
Ali,
onde o orvalho repousa sobre o lírio e as suas vergônteas
estendem suas raízes, prometendo ter a glória da
oliveira e a fragrância suave do incenso mesclado de
mirra, canela e cálamo aromático. Ali, onde finalmente
floresce a erva com cana e juncos, aonde o fruto da
vinha plantada servirá de refrigério e aonde os dois
raminhos de oliveira vertem ouro de si. Ali, onde o
homem não jaz.
Sofre
dores de parto, contorce-se, dilata-se, dando lugar a
terremotos, vendavais e erupções, e eis que tudo isso
um dia virá à luz. É posto um caminho paralelo ao
rio. E por esse caminho passarão todos aqueles que não
são confundidos, remidos. Diz-se que nem os loucos
errarão, pois é alameda segura para quem testemunha a
verdade. Eis que agora, a prometida herança, torna-se
palpável, visível como o júbilo do leão diante de
sua presa ferida. Porém, ainda que se vislumbrem o gozo
e a alegria eterna, ela continua prometida. E a sua
posse não é dada por usucapião, nem a sua promessa
pode perecer, ainda que sejam medidas as distâncias dos
céus e da terra.
E
se ainda não se pode ver o sol, que resplandece nos céus,
não importa, porque passando o vento e purificando-a, o
esplendor de ouro vem do norte. Assim, dos quatro cantos
sopram os ventos, e ela se recria. Dos quatro cantos
sopram os ventos, e ela se renova. Dos quatro cantos
sopram os ventos, e ela toma nova forma, pura. Contudo,
hão de ser renovados, céus e terra, mente e coração
humanos onde não haja lembrança das coisas passadas.
Mente e coração dispostos a ser transformados pela
renovação do juízo, do valor e do sentimento.
Dispostos a não estar conformados com este século [éon]
ainda que este seja mal e longo demais.
Apresentando-se,
então, em sacrifício racional, deleitável como um
incenso aromático, vivo como um bem-te-vi que voeja em
liberdade, a mente-céu e o coração-terra são
exercitados e preparados para receber a boa semente,
germinar a agradável esperança e frutificar a perfeita
vontade daquele que criou todas as coisas para o seu próprio
deleite, para colheita da sua bondade e ceifa do seu
amor, porque, quem compreendeu o seu intento e quem foi
o seu conselheiro no primeiro dia?
Eis,
pois, por que a terra prometida é tema vital. Porque
nela colheremos a vida eterna no último dia, porque,
como foi dito, nem todos dormiremos, mas todos seremos
transformados. Nesse dia colher-se-á um corpo
espiritual, semeado em corpo animal; colher-se-á um
corpo revigorado, semeado na fraqueza; colher-se-á um
corpo incorruptível, semeado em corpo que perece;
colher-se-á um corpo glorioso, semeado em ignomínia.
Desse
modo, assim como vemos a figura terrena, almejamos
aquela celestial, perfeita. Semeamos, pois, no pó
imperfeito, na erva seca cujas folhas caem, para colher
na perfeição do espírito cujos frutos são manifestos
e cujos olhos iluminam toda a terra.
Naquele
dia, as potencias dos céus serão abaladas e cairão, o
firmamento será enrolado, a terra será fendida pelo
meio, para o oriente e para o ocidente, e os montes serão
aplainados, tudo em redor será planície, pois toda a
terra se encherá do conhecimento da glória do
redentor, como as águas cobrem o mar.
Aguardando
então o cumprimento da promessa, procurai com zelo ser
achado como posseiro de terra virgem, imaculada,
irrepreensível e apta para germinar o fruto imortal sob
o sol da justiça.
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